Fonte – Herberto Helder.


Ela é a fonte.
Eu posso saber que é a grande fonte,
em que todos pensaram.
Quando no campo se procurava o trevo,
ou em silêncio se esperava a noite,
ou se ouvia algures na paz da terra
o urdir do tempo …
Cada um pensava na fonte.
Era um manar secreto e pacífico.
Uma coisa milagrosa que acontecia
ocultamente.

Ninguém falava dela,
porque era imensa.
Mas todos a sabiam como a teta.
Como o odre.
Algo sorria dentro de nós.

Minhas irmãs faziam-se mulheres
suavemente.
Meu pai lia.
Sorria dentro de mim
uma aceitação do trevo,
uma descoberta muito casta.
Era a fonte.

Eu amava-a dolorosa e tranquilamente.
A lua formava-se
com uma ponta subtil de ferocidade,
e a maçã tomava um princípio
de esplendor.

Hoje o sexo desenhou-se.
O pensamento perdeu-se e renasceu.
Hoje sei permanentemente
que ela é a fonte.

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