A Noosfera – Pierre Teilhard Chardin.

Assim como existe a atmosfera, também há uma espécie de mundo das idéias, constituído pelas coisas do espírito, produtos culturais, linguagens, teorias e conhecimentos. Todos nós alimentamos a noosfera quando pensamos e nos comunicamos..
Assim, a noosfera exerce uma influência decisiva sobre nossos comportamentos. Ou, como disse Edgar Morin, “as idéias que possuímos são capazes de nos possuir”

Antes de tudo, é preciso esclarecer esses dois termos, que geram enormes confusões relativas à compreensão de duas realidades diferentes às quais eles se referem: Noogênese, do grego noos = mente (alma, espírito, pensamento, consciência) e gênese = origem, (formação, criação, como “a criação do mundo”), é uma palavra que indica o ato da criação de qualquer coisa de psíquico; Noosfera, também do grego noos = mente (alma, espírito, pensamento, consciência) e sphera (corpo limitado por uma superfície redonda), é uma palavra que representa a camada psíquica nascida da Noogênese, que cresce e envolve nosso planeta acima da Biosfera (camada formada pela multidão de seres vivos, que cobre a superfície do globo).
Quando o Homem apareceu na Natureza, “no meio dos Primatas,” ele desabrochou como “a flecha da Evolução zoológica” .Ele era semelhante aos outros animais, exceto pelo fato de que ele trazia consigo uma diferença toda especial : a capacidade ainda adormecida de refletir. No estágio de hominização, os primeiros hominídeos tinham, em latência, um cérebro capaz de refletir, mas um sistema nervoso ainda primitivo. O movimento dispersivo do primeiro povoamento da Terra não favorecia a comunicação por agrupamentos. Em seguida, entretanto, durante o princípio da etapa do Homo Sapiens, no alvorecer da Era Neolítica, a Humanidade começava a se reunir, formando uma linha convergente sobre a Terra ; a aglomeração tornou-se necessária. Essa condição favorável encorajou o Homem a dar o Passo da Reflexão. Então um fenômeno muito especial é produzido : o nascimento de uma nova esfera planetária, acima da Biosfera, a Noosfera. A esse processo de dar origem a uma camada planetária inteiramente nova, formada totalmente pelo conjunto do pensamento humano, deu-se o nome de Noogênese .
A Noosfera, portanto, é o resultado da Noogênese ; uma camada mais madura, em crescimento e definitiva, feita pelo conjunto do pensamento ser humano.. Ela está aberta a todas as modificações sutis, desde o estágio primitivo até chegar a abrigar todo o conhecimento humano, todas as idéias e tecnologias cada vez mais complexas, ou seja, toda a consciência planetária.
Evidentemente, o cérebro do Homem já se tornou bem equipado. Entretanto, pode-se perguntar, diante de tantas forças de destruição, neste fim de milênio, se esse cérebro se tornará suficientemente complexo e suficientemente capaz de reflexão, no sentido “noosférico”, para iluminar a rota para o futuro? O Homem, eixo e flecha da evolução, .irá tornar-se mais compreensivo em relação a seu Próximo e mais aberto espiritualmente em relação à fonte de sua Criação ? Ele irá empregar todos os enormes recursos materiais e técnico-sociais do planeta, para criar maiores vínculos econômicos, sociais e espirituais, em vez de se permitir capitular diante das forças de repulsão e de desintegração ?
Como a Noosfera é um envelope feito pelo pensamento humano, ela evolui simultaneamente com o conjunto da evolução da consciência planetária. Vencidas as barreiras que impedem os homens de formar uma comunidade plena (real em seu significado mais estrito), o homem passa a entender que não pode continuar a existir sem a cooperação e o apoio dos seus iguais; lidar com a vida e seus empecilhos passará a ser uma tarefa mais próspera – e mais humana – na medida em que unir esforços com os demais, num trabalho coletivo em prol de objetivos comuns. Esta ascensão à esfera do “espírito humano”, do pensamento, do compartilhamento de idéias, de mentes (nous), resultará numa novíssima etapa de convívio e aprendizado para a Humanidade: marcará o início do estágio “evolutivo” da Noosfera, da plenitude de uma consciência solidária, de uma inteligência coletiva, em busca da partícula divina do universo cósmico e sistêmico.

Padre Teilhard de Chardin

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Não Seja Enganado Por Mim – Charles C. Finn.

Guardei por anos esse texto, entitulado “Máscaras” e de “autoria desconhecida”. Contudo, o nome do texto é outro, e o autor é americano, vivo, e tem um site muito amável colocado no ar por sua maior fã: sua esposa (o que torna tudo ainda mais belo). Seu nome é Charles C. Finn. Tenho a responsabilidade de creditar os textos aos seus devidos autores, e preservar tanto quanto possível a integridade de seus escritos. Esse é um texto fantástico, que trata de uma realidade interna de cada um de nós, manifestando-se em direção ao Outro. Assim, publico aqui o original em inglês, a versão que mais circula em e-mails pela Internet e minha tradução direta do original. Desfrutem.

Não seja enganado pela face que visto.
Por eu vestir uma máscara, um milhar de máscaras,
máscaras que eu temo tirar
e nenhuma delas sou eu.
Fingir é uma arte que é uma segunda natureza para mim,
mas não seja enganado,

Pelo Amor de Deus, não se deixe enganar.
dou a você a impressão de que sou seguro,
de que tudo é ensolarado e sem perturbações comigo,
por dentro e por fora, que confiança é meu nome
e sangue frio é meu jogo,
que as águas são calmas e eu estou no comando
e que eu não preciso de ninguém,
mas não creia-me.

Minha superfície pode parecer gentil,
mas minha superfície é minha máscara,

sempre mudando e sempre escondendo,
Por baixo, desvela-se a não complacência.
Por baixo desvela-se confusão, e medo, e solidão.
Mas eu escondo isto. Eu não quero que ninguém saiba.
Entro em pânico ao pensar na minha fraqueza exposta.

É por isso que freneticamente eu crio uma máscara
para por trás esconder-me
uma fachada sofisticada indiferente
para me ajudar a fingir,
para escudar-me da olhadela que sabe.

Mas uma olhadela dessas é precisamente minha salvação,
minha única esperança,e eu sei disso.
Isto é, se ela é seguida de aceitação
se é seguida de amor.
É a única coisa que pode me libertar de mim mesmo
dos muros da prisão que construí eu mesmo
das barreiras que eu ergui tão dolorosamente.

É a única coisa que vai me assegurar
de que eu não posso me assegurar,

que eu realmente tenha algum valor.
Mas eu não digo isso a você.
Eu não me atrevo, estou com medo.
Estou com medo que sua olhadela não seja seguida de aceitação,
que não vá ser seguida de amor.
Eu tenho medo que você pense menos de mim,
que você ria, e sua risada poderia matar-me.
Estou com medo que bem lá dentro eu não seja nada

e que você vai ver isso e me rejeitar.
Então eu jogo, meu jogo, meu desesperado jogo de fingir,
com uma fachada de segurança por fora
e uma criança a tremer por dentro.
Então começo o desfile brilhante mas vazio de máscaras,
e minha vida se torna um front.

Converso com você sem propósito, nos suaves tons de diálogo superficial.
Eu digo a você tudo que na verdade é nada,
e nada que na verdade é tudo,

o que está a chorar dentro de mim.
Então quando eu for para minha rotina

não seja enganado pelo que estou dizendo.
Por favor, escute atentamente e tente escutar o que eu não estou dizendo,
o que eu gostaria de conseguir dizer,
o que para sobreviver eu preciso dizer,
mas o que eu não posso dizer.
Eu não gosto de esconder.
Eu não gosto de jogar jogos falsos e superficiais.
Eu quero parar de joga-los.
Eu quero ser genuíno, espontâneo e eu mesmo
Mas você tem que me ajudar.
Você tem que estender sua mão
mesmo quando esta é a última coisa que eu pareço querer.

Somente você pode enxugar para longe de meus olhos
o olhar fixo e vazio de morto-vivo.
Somente você pode invocar minha vivacidade
Cada vez que você é doce, sutil e encorajador,
cada vez que você tenta entender porque você realmente se importa,
meu coração começa a desenvolver asas –
asas bem pequenas,
asas bem débeis, mas asas!

Com seu poder de me tocar os sentimentos

você pode soprar vida em mim.
Eu quero que você saiba disso.
Quero que você saiba o quão é importante para mim,
O quão você pode ser um criador – um honesto criador de Deus –
dessa pessoa que sou eu.

se você escolher faze-lo.
Você pode, você mesmo, quebrar o muro sob o qual eu tremo,

Você pode, você mesmo, remover minha máscara,
Você pode, você mesmo, me libertar de meu mundo sombrio de pânico,
de minha prisão solitária,
se você escolher faze-lo.
Por favor, escolha faze-lo.

Não passe por mim.
Não será fácil para você.
Um a longa convicção de menos-valia constrói muros fortes.
Quanto mais perto você se aproximar de mim
o escurecedor eu posso contra atacar.
É irracional, mas a despeito do que os livros dizem sobre o homem
frequentemente eu sou irracional.
Eu luto contra cada coisa que eu choro perder.
Mas me disseram que o amor é mais forte que muros fortes
e nisto reside minha esperança.

Por favor tente vencer essas muralhas
com mãos firmes porém gentis
para uma criança que está bastante sensível.

Quem eu sou, você pode vislumbrar?
Eu sou alguém que você conhece muito bem.
Por eu ser cada homem que você encontra
e ser cada mulher que você encontra.

Charles C. Finn, Setembro de 1966

Tradução de Arnaldo V. Carvalho

Canção das Mulheres.

Que o outro saiba quando estou com medo,
e me tome nos braços
sem fazer perguntas demais.

Que o outro note quando preciso de silencio,
e não vá embora batendo a porta,
mas entenda que não o amarei menos
porque estou quieta.

Que o outro aceite
que me preocupo com ele
e não se irrite com minha solicitude,
e se ela for excessiva
saiba me dizer isso
com delicadeza ou bom humor.

Que o outro perceba minha fragilidade
e não ria de mim,
nem se aproveite disso.

Que se eu faço uma bobagem,
o outro goste um pouco mais de mim,
porque também preciso poder
fazer tolices tantas vezes.

Que se estou apenas cansada
o outro não pense logo
que estou nervosa,
ou doente, ou agressiva,
nem diga que reclamo demais.

Que o outro sinta quanto me dói
a idéia da perda,
e ouse ficar comigo um pouco mais
em lugar de voltar logo à sua vida,
indo porque lá está a sua verdade
mas talvez, seu medo ou sua culpa.

Que se começo a chorar sem motivo
depois de um dia daqueles,
o outro não desconfie logo
que é culpa dele, ou
que não o amo mais.

Que se estou numa fase ruim
o outro seja meu cúmplice,
mas sem fazer alarde nem dizendo
‘Olha que estou tendo
muita paciência com você!’

Que se me entusiasmo por alguma coisa
o outro não a diminua,
nem me chame de ingênua,
nem queira fechar
essa porta necessária
que se abre para mim,
por mais tola que lhe pareça.

Que quando sem querer,
eu digo uma coisa bem inadequada
diante de mais pessoas,
o outro não me exponha
nem me ridicularize.

Que quando levanto de madrugada
e ando pela casa,
o outro não venha logo atrás de mim reclamando:
‘Mas que chateação
essa sua mania,
volta pra cama!’

Que se eu peço um segundo drinque no restaurante,
o outro não comente logo:
‘Pôxa, mais um?’

Que se eu eventualmente
perco a paciência,
perco a graça e
perco a compostura,
o outro ainda assim
me ache linda e me admire.

Que o outro , filho, amigo, amante, marido,
não me considere sempre disponível,
sempre necessariamente compreensiva,
mas me aceite quando não estou podendo ser nada disso.

Que, finalmente, o outro entenda
que mesmo se às vezes me esforço,
não sou, nem devo ser,
a mulher-maravilha,
mas apenas uma pessoa vulnerável
e forte, incapaz e gloriosa,
assustada e audaciosa .
Uma mulher!!!

Não Basta Ser Namorado.

Era uma vez um homem que tinha uma floricultura e alguém que vivia por entre flores,
só podia entender muito de amor.
Verdade, ele entendia!
Tinha histórias muito interessantes para contar.
Às vezes, eu criança ainda, passava por lá e se o encontrava desocupado, sempre parava para ouvir algumas delas. Desde pequena, eu já percebia que aquele homem era um sábio em se tratando de amor e isso me anestesiava quando eu ouvia as histórias que ele vivenciara. Mas de todas que ele me contou, houve uma que eu nunca esqueci e vou contá-la para vocês exatamente como ele me contou. “Pequena (ele me chamava assim), o amor não precisa ser dito, ele é sentido; e quando sentido, é possível vê-lo; ele toma formas reais, deixa de ser abstrato.” Eu pouco pude entender isso naquela ocasião, mas tive vontade de ver o amor com meus próprios olhos; tive curiosidade de saber se ele era perfeito, se era bonito, se irradiava luminosidade.
Bem… mas vamos à história.
Era dia dos namorados, um rapaz entrou correndo em sua loja e disse-lhe:
Por favor, senhor, providencie-me um buquê de flores.
E que tipo de flores você quer?
Qualquer tipo. Só quero que seja algo que faça vista; pode ser o mais caro que o senhor tiver aí.
Está certo. Então tome o cartãozinho para você escrever
Não tem necessidade, é para minha namorada e como hoje é o dia dos namorados, ela saberá que é meu.
Você que sabe, mas no seu lugar, eu escreveria.
Não posso, estou com muita pressa! Vou levar meu carro para lavar. Depois que o rapaz se foi, o senhor ficou ali a pensar como alguém poderia enviar flores sem as escolher, sem escrever um cartão com uma bonita dedicatória… mas, enfim preparou um bonito buquê e mandou para o tal endereço pensando…
“Coitada dessa moça!”
Algumas horas depois, um outro rapaz entrou na sua loja.
Senhor, por favor, eu quero mandar uma flor para alguém. Ela é muito especial, mas não tenho dinheiro suficiente para um buquê requintado; sendo assim, terá que ser somente uma rosa, mas faço questão que seja a mais linda que exista em sua floricultura.
Pois bem, você quer escolhê-la ou prefere que eu escolha?
Gostaria de escolher, mas aceito a sua sugestão porque tenho certeza que o senhor entende bem disso.
Será um prazer! É sua namorada, não?
Não senhor… ainda não… mas isso não é importante; o importante é que eu a amo e acho que hoje é um bom dia para dizer isso a ela.
Muito bem, concordo com você.
Talvez eu devesse escolher um botão de rosa, não acha? Afinal, nosso amor ainda não floresceu.
Muito bem pensado!
Naquele instante o senhor percebeu que o rapaz, como ele, entendia de amor e com certeza estava vivendo um doce amor.
Por favor, faça o invólucro mais bonito que o senhor puder fazer enquanto escrevo o cartão.
“Meu amor, estou lhe mandando esse botão de rosa juntamente com meu carinho.
A mim, não importa que você não me ame, porque apesar do meu amor ser solitário ele é verdadeiro e sendo verdadeiro, confio que um dia poderá viver acompanhado do seu. Não tenho pressa, amor de verdade não tem pressa, amor de verdade não escraviza, nem exige, apenas se importa em doar.
Um feliz dia dos namorados ao lado de quem você amar.
Um beijo!”
Depois que escreveu o cartão, o rapaz entregou ao senhor e disse-lhe:
Leia por favor e me dê a sua opinião.
Perfeito, gostei muito; só faltou um pequeno detalhe, você esqueceu de assiná-lo.
Não esqueci, não… É que não é importante, por enquanto, que ela saiba quem sou eu. Nesse momento eu só pretendo que ela sinta quem sou eu.
O senhor sorriu e disse-lhe:
Muito bem, meu filho, torço por você!
Passaram-se os dias, os meses e um novo dia dos namorados chegou e novamente o primeiro rapaz voltou a loja.
Bom dia, senhor, lembra-se de mim?
Lembro, sim, e então, como vai o namoro?
Ih…o senhor nem imagina! Depois daquele dia dos namorados do ano passado, ela terminou comigo e eu nunca entendi a razão; agora já estou namorando outra.
Mas ela não lhe deu nenhuma explicação?
Ah! deu sim… uma explicação que eu não entendi. Ela me disse que eu a estava perdendo por causa de um botão de rosa.
O senhor entende, não é?
Bobagens de mulher.
Entendo sim… quem não entendeu foi você!
Não adianta um casal apenas sorrir juntos; eles precisam sorrir das mesmas coisas.
Não adianta apenas caminhar juntos; tem que ser na mesma direção.
Não adianta apenas mandar flores; é crucial que elas cheguem ao seu destino com o perfume.
Não adianta se fazer presente apenas de corpo; é de suma importância que a alma e o coração estejam presentes também.
NÃO BASTA SER NAMORADO
É PRECISO ESTAR ENAMORADO!!!

Silvana Duboc

Quero Voltar a Confiar.

Fui criado com princípios morais comuns: Quando eu era pequeno, mães, pais, professores, avós, tios, vizinhos eram autoridades dignas de respeito e consideração. Quanto mais próximos ou mais velhos, mais afeto. Inimaginável responder de forma mal educada aos mais velhos, professores ou autoridades…
Confiávamos nos adultos porque todos eram pais, mães ou familiares das crianças da nossa rua, do bairro, ou da cidade… Tínhamos medo apenas do escuro, dos sapos, dos filmes de terror…
Hoje me deu uma tristeza infinita por tudo aquilo que perdemos. Por tudo o que Meus netos um dia enfrentarão. Pelo medo no olhar das crianças, dos jovens, dos velhos e dos adultos.
Direitos humanos para criminosos, deveres ilimitados para cidadãos honestos. Não levar vantagem em tudo significa ser idiota. Pagar dívidas em dia é ser tonto… Anistia para corruptos e sonegadores… O que aconteceu conosco? Professores maltratados nas salas de aula, comerciantes ameaçados por traficantes, grades em nossas janelas e portas.
Que valores são esses? Automóveis que valem mais que abraços, Filhas querendo uma cirurgia como presente por passar de ano. Celulares nas mochilas de crianças. O que vais querer em troca de um abraço? A diversão vale mais que um diploma. Uma tela gigante vale mais que uma boa conversa. Mais vale uma maquiagem que um sorvete. Mais vale parecer do que ser…
Quando foi que tudo desapareceu ou se tornou ridículo? Quero arrancar as grades da minha janela para poder tocar as flores! Quero me sentar na varanda e dormir com a porta aberta nas noites de verão! Quero a honestidade como motivo de orgulho. Quero a retidão de caráter, a cara limpa e o olhar olho-no-olho. Quero a vergonha na cara e a solidariedade. Quero a esperança, a alegria, a confiança! Quero calar a boca de quem diz: “ temos que estar ao nível de…”, ao falar de uma pessoa. Abaixo o “TER”, viva o “SER” E definitivamente bela, como cada amanhecer.
E viva o retorno da verdadeira vida, simples como a chuva, limpa como o céu de primavera, leve como a brisa da manhã! Quero ter de volta o meu mundo simples e comum. Vamos voltar a ser “gente” Onde existam amor, solidariedade e fraternidade como bases. A indignação diante da falta de ética, de moral, de respeito… Construir um mundo melhor, mais justo, mais humano, onde as pessoas respeitem as pessoas. Utopia? Quem sabe?…”

Arnalado Jabor

Dá-me a Tua Mão – Clarice Lispector.

Dá-me a tua mão:
Vou agora te contar
como entrei no inexpressivo
que sempre foi a minha busca cega e secreta.

De como entrei
naquilo que existe entre o número um e o número dois,
de como vi a linha de mistério e fogo,
e que é linha sub-reptícia.

Entre duas notas de música existe uma nota,
entre dois fatos existe um fato,
entre dois grãos de areia por mais juntos que estejam
existe um intervalo de espaço,
existe um sentir que é entre o sentir
nos interstícios da matéria primordial
está a linha de mistério e fogo
que é a respiração do mundo,
e a respiração contínua do mundo
é aquilo que ouvimos
e chamamos de silêncio

Serei Sempre Eu Mesma! – Clarice Lispector.

Gosto dos venenos mais lentos,
das bebidas mais amargas,
das drogas mais poderosas,
das idéias mais insanas,
dos pensamentos mais complexos,
dos sentimentos mais fortes…
Tenho um apetite voraz
e os delírios mais loucos.
Você pode até me empurrar de um penhasco
que eu vou dizer:
E daí? Eu adoro voar!
Não me dêem fórmulas certas,
por que eu não espero acertar sempre.
Não me mostrem o que esperam de mim,
por que vou seguir meu coração.
Não me façam ser quem não sou.
Não me convidem a ser igual,
por que sinceramente sou diferente.
Não sei amar pela metade.
Não sei viver de mentira.
Não sei voar de pés no chão.
Sou sempre eu mesma,
mas com certeza não serei a mesma
pra sempre