O Direito de Ser Eu Mesmo ou “A Nova Inquisição”

Eu não gosto de cebola, berinjela, pêssego, coraçãozinho de galinha e miúdos, entre outros que tolero, se não tiver opção. Como suco de manga, por exemplo. Até bebo, mas da fruta, da polpa nem chego perto.

Serei perseguido pela patrulha feroz dos nutricionistas, empenhados em linchar-me? Serei queimado em praça pública por tornar meus gostos ou desgostos públicos? Estarei contribuindo para um movimento anti-cebolas, anti-pêssegos ou anti-berinjelas?

Claro que não. Apesar de a vida inteira ouvir as famosas frases: “não sabes o que é bom”, “nunca experimentou como eu preparo” e o pior de todos “mas como podes não gostar? É uma delicia”.
Sempre, em todos os momentos de nossas vidas, haverá quem não entenda nossos gostos e escolhas e tentarão nos “cooptar” às suas causas e cruzadas.

Qual o crime que cometo? O de não gostar? Ou de expressar publicamente sobre o que não gosto?

Não cometo crime nenhum. Acima de tudo exerço meu sagrado direito de ser “eu mesmo”. Não fui manipulado por qualquer seita secreta, nem sofri lavagem cerebral na infância para não gostar e até mesmo rejeitar comer tais alimentos.

E reconheço que todos têm grande importância na dieta do ser humano. Estimulo meus filhos e comerem. Vejam bem: “estimulo”, não os obrigo.

Vejo as manifestações pró e contra a tal PL122, que quer criminalizar a homofobia. E concordo que todos têm direito de ser quem bem desejarem. E que ninguém tem nada a ver com isto. Daí, sou contra a homofobia, como sou contra a qualquer tipo de fanatismo ou exacerbação dos chamados “direitos” individuais.

Sou a favor da pluralidade e do respeito a diversidade. Somente em uma sociedade plural e diversificada é que encontraremos verdadeiros elementos de aprendizagem e de crescimento como pessoas.

E vejam que não estou me apegando a “pseudo” conceitos religiosos, muito menos falsos conceitos científicos mengelianos, que desde logo me assustam. Também não vou entrar no mérito se o homossexualismo é uma questão de escolha ou de genética.

Respeito as pessoas como são e pelo que são, pelo que podem nos oferecer como seres humanos: caráter, honestidade, amizade e principalmente respeito às diversidades e diferenças.
Assim, não enxergo primeiro seu gênero, cor, sexo, crenças, situação financeira ou posição política. Enxergo primeiro suas qualidades como pessoa, por suas posturas frente a vida e no convívio social.

Muitas vezes este convívio é prejudicado exatamente pela exacerbação de posições frente as diferenças. Tenho amigos espíritas e católicos, que não podem se encontrar, não conseguem ver num e noutro suas qualidades. Assim como tenho amigos gay e heteros, que não se aceitam mutuamente.

Sou obrigado a escolher? Tenho que tomar posição em favor de um, contra o outro? Minha escolha é não: conviverei com ambos, apesar de lhes faltar uma qualidade essencial que é o respeito ao outro.

Mas respeito o direito de cada um deles de serem eles mesmos. Mesmo não concordando com seus pensamentos e posições.

Nossa Constituição já trata dos preconceitos e os repudia. Em seu Artigo 5º expressa que todos “são IGUAIS perante a lei”. Perante a LEI, não significa excluir as diferenças como muitos enxergam.

Portando, não farei parte nem como vítima muito menos como algoz desta verdadeira “Nova Inquisição”, em nome do “politicamente correto”. Não perseguirei aqueles que não gostam de gays, como não recriminarei aqueles que detestam héteros. É um direito de cada um. Da mesma forma que não sou obrigado a simpatizar com qualquer pessoa, como ninguém é obrigado a simpatizar comigo. Independente de crenças, pensamento poítico, sexo, gênero ou situação financeira.

Não serei mais um Cruzado nesta insana divisão social entre as pessoas, em que seus valores interiores são menores que suas manifestações exteriores.

Toda violência, física ou psíquica deve ser punida. Preconceito é odioso. Basta lembrar que nosso DNA, comprovado pela ciência, elimina a divisão “racial” como desejavam e pregavam muitos “cientistas” e políticos até o século XIX. Somos todos feitos do mesmo “barro”.

Portanto, não se trata de punir a homofobia, a discriminação racial (não gosto deste termo, raça é a humana, o resto são etnias), discriminação por renda, ou qualquer outro fator. Trata-se de punir a violência contra a pessoa. E nisto, ai sim, sou e serei sempre um guerreiro.

Gostem ou não de mim. Tenho o direito de ser eu mesmo…

Porto Alegre
Silvio Belbute, Jornalista.

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Quatro Patas, Três Refeições Diarias, Bom-Moço e Papai-do-céu.


Então tem que explicar para essa gente toda, com uma paciência que às vezes me foge pelos bolsos furados e desce tripas adentro, que a briga toda que eu declaro ao mundo – metaforicamente falando, senhores psicanalistas de mesa de bar – não tem a ver com gostar de cachorro ou ter pena de animais fofos o suficiente para estarem em um desenho animado. Não, meus horizontes não são tão curtos quanto pressupõem todos aqueles que não me conhecem, mas cujo veredicto está a um segundo de ser lavrado, tão logo ouvirem o começo de tudo que tenho a dizer. Não aceito a posição lacônica dos que não querem se incomodar, dos que têm medo de se envolver, dos que temem ficar malfalados, dos que precisam estar mimetizados nas ideias dos demais, para que não se sobressaiam e possam seguir em frente o ritmo de vida Playmobil com celular cheio de funções.

A concordância tácita com a exploração dos não humanos vem dessa posição de noivo-e-noiva em cima do bolo, estáticos para não saírem mal nas fotos. Depois, o choque ao ver uma foto, um banner ou um vídeo que esfregue a dor alheia no rosto de quem torce por passar despercebido.

Não, eu não posso perdoar o bom-mocismo como não-incômodo, se este mundo é áspero, pontudo, afiado, pesado e ardido para todos aqueles indivíduos que, ‘azar né?’, nasceram para correr o mundo sobre… deixa eu ver aqui o que diz o manual… QUATRO patas, por exemplo. Isso é uma falta grave e indesculpável, que torna seu usuário sujeito a toda sorte de castigos por quem carrega, estes sim, as virtudes como galões de um Sete de Setembro planetário.

Então quem vive confinado, seja no gradeado bucólico do ‘produtor rural’ – e nisso não vejo diferença entre o agronegócio e o familiar – ou mesmo na coleira comprada em pet shop, paga um débito que lá atrás, e bota lá atrás, nisso, alguns decidiram, e os bilhões posteriores aceitaram numa boa, concordando com a cabeça enquanto mandavam alguma mensagem pelo celular. Isso o fiapo de gente, porque a vasta maioria apenas reprisa os últimos capítulos das vidas anteriores, com o orgulho de ineditismo e, ora vejam, prova incontestável de sua liberdade de escolha. OK papai, agora eu penso por conta própria, diz que sim!

E repensar as três refeições diárias – isso para começo de conversa, vamos deixar claro antes que alguém aí comece a espernear antes do tempo – e ver que o ato subversivo se impõe como uma correção a um sistema que massacra vidas, ‘almas’ e escolhas. O império da morte. Os rótulos que dizem ‘deixa pra lá’, no corre-corre dos supermercados, o Autorama da vida sempre na velocidade máxima, e isso exige que os porões, lá embaixo, abaixo dos meus intestinos, como uma fossa, estejam cheios de olhos que impressionam, quando fotografados e essas imagens são distribuídas.

A beleza da natureza só poderia ser seviciada pela mão de um humano fazedor de cálculos, que projeta lá para frente o que diabos ele quer, e nesse meio-tempo tudo é combustível para ser queimado na máquina do destruidor. Isso no campo, porque a cidade estala os dedos e faz vir seus caprichos pré-pagos direto para a mesa das famílias ordeiras e tradicionais. E ninguém, em meio aos álbuns de família e conselhos de vó, será boca-suja o suficiente para dizer que um porco deveria ter liberdade, e não ser cativo, como todos ali se esforçam para parecer que não são.

A comparação ofende o bom-moço. Tira seu norte de saber bem onde pisar, o que pensar, e o que dizer quando alguém pergunta o que pensa. Mas faz sentido muita coisa que, ouvira dizer, era conversa não recomendada. Porcos, vacas, beagles na Europa, cachorros SRD na China, ratos na faculdade mais próxima, peixe na mesa dos autointitulados ‘vegetarianos’, o churrasco-festa que passa a ter cores invertidas, mesmo que isso desagrade papai, patrão, padre, político, pecuarista, pretendentes, parentes e papai-do-Céu, de uma só vez.

Porto Alegre
Marcio de Almeida Bueno,
(Jornalista)