Variações sobre um tema banal – J.G. de Araujo Jorge.



I
Não te esqueças que a vida é um momento que voa
um efêmero instante de beleza e alento;
vive pois sem temor e com desprendimentoo que ela te ofertar,
sem maldize-la à-toa!
E’ uma nuvem que muda aos caprichos do vento!
Se hoje a perdes… O tempo nunca te perdoa!
Vida!
Repara bem como a palavra soa!
Não temas pronunciá-la com deslumbramento!
Há alguém, não sei quem é, mas disto estou seguro,
que nos há de intimar num remoto futuro
a dar contas da vida que um dia ganhamos…
E após tal julgamento estranho, com certeza
havemos de sofrer e pagar,
se em defesanão der-mos as razões porque a desperdiçamos…

II
O que a vida te der, seja migalha embora,
se é migalha de amor, de prazer, de alegria,
colhe-a! que esta migalha é o pão de cada dia,
e há de um dia chorar quem hoje a jogar fora!
Quem muito quer, despreza o pouco, sempre chora,
ou quem indiferente segue, de alma fria,
há de um dia parar e há de lembrar-se um dia
do clarão que se foi numa longínqua aurora!
Então, nada haverá…
nem mais frutos nos ramos nem migalhas de amor
se outrora as desprezados,
e a indiferença de ontem sofre arrependida…
E ante a sombra que vem velar nosso desgosto
procuramos em vão uma aurora perdida na luz
que desespera e morre num sol-posto!

III
Hás de te arrepender sempre tarde demais
dos momentos de amor ou de puro prazer
que com medo talvez,
não quiseste colher e ficaram em branco …
inúteis, para trás …
Vive com todo o ardor de que fores capaz
e a essa paixão entrega, em êxtase, teu Ser.
Ah! bem pior do que a dor vivida, podes crer,
é a dor de não poder vivê-la nunca mais!
Não receies sofrer, que é vida o sofrimento.
Receia, e com razão – cada dia perdido
sem que o amor te arrebate ou te perca um momento.
De nada há de servir-te o desespero teu,
pois mais vale chorar o amor que foi vivido
que lastimar o amor que um dia se perdeu!

IV
Quantas vezes já ouvi dizer amargamente
quando a noite do tempo chegou sem alarde:
“só agora depois que o coração não arde,
não arde o coração… e a alma já não sente…
vejo, quanto perdi, irremediavelmente,
por ter sido na vida, um tímido, um covarde!
Ah! se pudesse ser o que fui, novamente!
“Quantas vezes já ouvi dizer… mas muito tarde…
Sofrimento absurdo esse arrependimentode
tudo ter podido alcançar num momento,
e tudo ter perdido sem erguer a mão…
E abatido ir sentido a invasão desse tédio
que vai enregelando aos poucos, sem remédio
a alma, o sonho, a esperança, a vida, o coração!

V
Antes se arrepender do que se fez um dia
por sincero prazer pondo tudo de lado,
do que o arrependimento de se ter deixadode fazer, por temor…
se o coração pedia.
Se colheste a emoção com intensa alegria
e se foste feliz e marcaste o passado,
bendiz esse segundo ou essa hora, – esse dia
em que o mundo foi teu, vencido e conquistado…
A vida é uma aventura e é preciso vivê-la!
Nada há que justifique uma abstinência ao mundo,
ergue a mão para o céu e colhe a tua estrela!
E’ a hora do Natal… A estrela é o teu presente!
Mesmo que ela cintile apenas um segundo,
contigo hás de levá-la indefinidamente…

VI
Escreve com teu sangue o teu próprio romance
enche-o com teu amor, misto de sonho e vinho,
mais vale ter no peito enterrado um espinho
depois – que a solidão até onde a vista alcance…
Sofrimento é afinal perceber, de relance,
que já estamos ao fim de um imenso caminho
e que tudo que esteve um dia ao nosso alcance
passou… E olhar em torno, e se sentir sozinho…
Não, não tentes voltar, porque a vida não volta…
Jogarás contra o vento a angústia e o desespero
e em espumas verás tua inútil revolta. . .Vive, pois…
E se assim te falo, e isso te digo,
é que poderás ver no instante derradeiro
que se a vida foi vã a memória é um castigo!

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Satisfatório! Muito obrigada.

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