Vermelho e branco – J.G. de Araujo Jorge.

O sangue vermelho
do homem branco,
do homem prêto,
do homem amarelo,
o sangue é vermelho,
é um sangue só.

O leite branco
da mulher branca,
da mulher prêta,
da mulher amarela,
o leite é branco,
é um leite só.

Deus pôs por dentro de homens
e mulheres
de aparências tão diferentes,
uma humanidade só:
– o mesmo anseio, a mesma fome,
o mesmo sonho, o mesmo pó;
o mesmo sangue vermelho,
da côr da vida, da côr
do amor,
e mais:
o mesmo leite branco,
da côr da paz.

Quando chegares… – J.G. de Araujo Jorge.

Não sei se voltarás
sei que te espero.

Chegues quando chegares,
ainda estarei de pé, mesmo sem dia,
mesmo que seja noite, ainda estarei de pé.

A gente sempre fica acordado
nessa agonia,
à espera de um amor que acabou sendo fé…

Chegues quando chegares,
se houver tempo, colheremos ainda frutos, como ontem,
a sós;
se for tarde demais, nos deitaremos à sombra e
perguntaremos por nós…

Hoje estou triste – J.G. de Araujo Jorge.

Amor… Hoje estou triste… Nesses dias
a vida de repente se reduz
a um punhado de inúteis fantasias…
… Sou uma procissão só de homens nus…

Olho as mãos, minhas pobres mãos vazias
sem esperas, sem dádivas, sem luz,
que hão semear vagas melancolias
que ninguém vai colher, mas que compus…

Amor, estou cansado, e amargo, e só…
Estou triste mais triste e pobre do que Jó,
– por que tentar um gesto? E para quê?

Dê-me, por Deus, um trago de esperança…
Fale-me, como se fala a uma criança
do amor, do mar, das aves… de você!

Chovia…chovia – J.G. de Araujo Jorge.

Naquela tarde, como chovia!

Me lembro de que a chuva caia
lá fora sem parar,
e seu surdo rumor até parecia
um sussurro de quem chora
ou uma cantiga de embalar…

Me lembro de que tu chegaste
inquieta, ansiosa,
mas logo te aconchegaste
em meus braços, quietinha…
(…enroladinha como uma gatinha…)

E eu quase não sabia que fazer:
se de encontro ao meu peito te deixava adormecer…
se te mantinha acordada, para seres minha…

Me lembro que chovia, chovia sem parar…
E que a chuva caía a turvar as vidraças
anoitecendo o quarto em tons baços…
Me lembro de que te sentia
aconchegada em meus braços…
Me lembro de que chovia…
E de que era bom porque chovia,
e porque estavas alí, e porque eu te queria…
Sim, me lembro que tudo era bom…
E que a chuva caía, caía,
monótona, sem parar,
naquele mesmo tom…

Naquela tarde, amor, como chovia!

Agora, quando longe de ti, nem sou mais eu
em minha melancolia,
não posso mais ouvir a chuva cair
que não fique a lembrar tudo que aconteceu
naquele dia…

Naquele dia
enquanto chovia…

A festa triste… – J.G. de Araujo Jorge.

Não, o Natal não é uma festa alegre,
é uma festa triste.

De repente
as crianças (logo as crianças!)
separam o mundo em duas metades
desiguais:
– de um lado, a abastança, indiferente ou piedosa;
do outro, a necessidade, a mendigar seus restos
como há milênios faz…

As crianças (logo as crianças!)
Algumas com presentes, brinquedos, esperanças,
e as puras alegrias que o bom Velhinho
lhes traz do céu;
outras, sem terem nada, e mesmo tendo pais,
são “órfãos do Natal”,
não tem Papai Noel…

Não. Neste mundo como está,
(neste mundo profano
que a um olhar mais humano
não resiste),
o Natal pode ser uma festa,
(quem contesta?)
mas é uma festa triste…

Ser mãe – J.G. Araujo Jorge.

Quando todos te condenem
quando ninguém te escutar,
ela te escuta e perdoa,
por ser mãe – é perdoar!

Quando todos te abandonem
e ninguém te queira ver,
ela te segue e procura
pois se mãe – é compreender!

Quando todos te negarem
um pão, um beijo, um olhar,
ela te ampara e acarinha
por ser mãe – sempre é se dar!

Vaga Doçura!

“… Essa vaga doçura fez o meu coração doer de saudade.
Pareceu-me ser o sopro ardente no verão,
procurando completar-se.
Eu não sabia então,
que a flor estava tão perto de mim.
Que ela era minha,
e que essa perfeita doçura tinha
desabrochado no fundo do meu próprio coração. ”

Rabindranath Tagore

Se me é negado!!!

Se me é negado o amor, por que, então, amanhece;
por que sussurra o vento do sul entre as folhas recém nascidas?
Se me é negado o amor, por que, então,
A noite entristece com nostálgico silêncio as estrelas?
E por que este desatinado coração continua,
Esperançado e louco, olhando o mar infinito?

Rabidranat Tagore

Vamos pensar! – André Ribeiro.

Acordando…
Um dia quando acordar pense antes de fazer algo, seja o que for, mas pare mesmo que seja por alguns poucos segundos, sobre o que você quer. O que você queira para o seu dia e para a sua vida. No despertar de um novo dia, é sempre uma renovação e um momento único para refletir. Sei que às vezes não estamos tão dispostos a ficar pensando em nós mesmos e ainda mais, sobre algo que nos faz refletir e, pela manhã quando mal acordamos. Nós seres humanos não gostamos de ficar ali, no canto da cama, sentado e antes de iniciar um dia movimentado, ficar parado e olhando para o vazio. Sei que isso não é fácil e incomoda, mas pare e tente. O vazio mostrará não ser tão vazio como você pensa!
Pode começar simplesmente por algo que lhe traga alegria, como por exemplo, imaginar você onde mais gosta de estar, seja ao lado de sua família, alguém que você ame muito ou mesmo, que sinta bem em estar com alguém. Pode pensar nos seus filhos, no seu trabalho, na bicicleta guardada e que você há muito tempo não a usa, na grama do jardim que talvez precise ser aparada, no carro que precisa ser lavado ou mesmo você fazendo uma viagem dos seus sonhos. Mas o importante é pensar, é começar o dia alevantando energia e pensamentos para um novo dia.
Todos sabem o valor e o poder dos pensamentos, por isso não menospreze e muito menos finja que não entende, porque todo mundo sabe que você tem suas próprias opiniões, talvez às vezes não as mostre, mas você às tem. Por isso lhe convido a usar um pouco do seu tempo para você mesmo, a usar o seu dom de elucidar momentos e contagiar seu corpo e mente de uma profunda evocação por algo que lhe faz bem.
Você já deve ter experimentado o quanto é bom saborear um delicioso sorvete de chocolate com calda de morando ou caramelo num dia quente. Uh, como é bom! Mas experimente você saborear um gostoso copo de sorvete assim que acordar às seis da manhã. Experiente! Eu nunca gostei de sorvete a essa hora do dia e acho que você também não vai gostar, sabe por quê? Porque tem coisas que gostamos muito e, que ficam melhores ainda em determinados momentos, porque em outros não estamos preparados para vivê-las. E é assim que a vida prossegue, você vive cada dia após o outro. Você já parou para ver como a vida caminha? O pote de sorvete gostoso é bom quando se tem vários fatores que entrelaçam para você saboreá-lo, como o calor do dia, os amigos, a família perto, a pessoa amada ou simplesmente quando você não tem nada para fazer, mas tem a vontade. O seu corpo esta preparado para isso. A vida caminha levando você a produzir. O sabor do sorvete as seis da manhã talvez não terá um sabor agradável.
Há momentos para tudo, para repensar a nossa vida e iniciar uma mudança. Concertar os erros, ou pelo menos tentar corrigir e minimizar os estragos que nós mesmos fazemos a nós e aos outros. Nunca pense que você esta sozinho, sempre há alguém do seu lado vivendo com você suas aventuras, seus sonhos, concordando ou não com suas decisões, mas respeitam. Talvez você reconheça quem lhe estenda a mão, ou não. Por isso é importante começar o dia pensando no que você quer para o seu dia. Seja sol, chuva, nuvens e mais nuvens no céu azul que é finito, uma chicará de café quentinha e, com um pedaço de pão trazido da padaria que ainda esta quente… Mas pense, pense! O que você emana para você e para os outros caem como luva nas suas horas diárias para favorecer seu caminho e aquecer sua alma.
Podemos ir a onde queremos, sermos o que quisermos… basta olhar para si próprio e ver suas limitações e o horizonte que exsite a sua frente. Seja águia para voar mais alto e longe, seja tigre para correr veloz e com coragem, seja o vento para sentir a brisa e fazê-la acontecer, seja a montanha que mesmo alta, intacta e imóvel é valente e persistente, mas ela continua firme e afim de seus propósitos. Seja o que você destinou a ser na sua vida e então o desfecho sempre será seu, exclusivamente seu!
E nunca esqueça que é sempre inteligente começar o dia bem.

Ser humano – J. B. Xavier.

Pobres seres humanos,
Que têm a lhes servir apenas a linguagem
E os sinais não verbais.
Pobres criaturas,
Fragilizadas pelas asperezas
Do que pensam ser carga demasiadamente pesada para seus ombros.
Pobres seres,
Que sendo universais,
Não se apercebem dessa universalidade,
E vivem a debater-se entre questiúnculas menores,
Que mais lhes subtraem do que lhes acrescentam ao crescimento…
Pobres entidades,
Divididas entre as imposições sociais e os instintos,
Entre os sonhos de liberdade e as algemas da segurança…
Ser humano é padecer no paraíso!
É sonhar com noites estreladas,
E assistir à tempestade que apaga estrelas,
Varre desertos,
Agita oceanos,
Mas não consegue atingir o espírito dos indomáveis,
Que não se quedam a queixarem-se,
Que não se deixam abater,
E que não chamam de destino as próprias incompetências…
Ser humano é transcender muitos planos,
No planisfério da cosmologia universal;
É sacudir mundos, se necessário,
Para que suas idéias sejam levadas em consideração,
É contar com ajuda, mas não depender dela;
É sorrir ao sisudo,
É vislumbrar o caminho à frente,
Magnífico pelo simples fato de estar lá!
Ser humano é perceber as próprias fragilidades,
Mas não fazer planos em função delas;
É ir ao encontro de, ao invés de aguardar um encontro com;
É ter consciência
De que é a somatória de erros e acertos
Em um processo evolutivo que transcende a própria humanidade,
E que conduzirá,
Em função da opção feita por um ou por outro,
Às conquistas inimagináveis, ou a erros decepcionantes…
Ser humano é optar pelo imponderável, que gera vida,
Ao invés de optar pelo imutável, que é, em si, a própria morte;
É estar consciente da conexão que nos liga ao cosmos,
Sem reduzir essa consciência às regras humanas,
E, como humanas, falhas.
Ser humano é perceber o equilíbrio
Que mantém coesas todas as coisas,
É perceber que a natureza, na mais ampla acepção deste conceito,
Fluirá e refluirá,
Como uma gigantesca maré onisciente e onipresente,
E reposicionará o que for necessário
Para que este equilíbrio seja mantido ou restaurado…
Ser humano
É transcender a compreensão de si mesmo,
É ascender para realidades que são, ao fim,
A razão última da existência.
Ser humano é uma bênção,
Um dom,Cuja recompensa depende da maneira de usá-lo.