“Séculos Indígenas”

“Se achamos que o nosso objetivo aqui, na nossa rápida passagem pela terra,

é acumular riquezas, então não temos nada a aprender com os índios.

Mas se acreditarmos que o ideal é o equilíbrio do homem

dentro da sua própria família, e dentro de sua comunidade,

então os índios têm lições extraordinárias para nos dar.”

Claudio Villas-Bôas

OOOOOO

Os tiros que se seguem rasgam o véu de silêncio em meio à noite escura.

Maria dos Anjos Paulino Guajajara, de apenas 6 anos de idade, em meio a seu sono
de criança, tem a vida interrompida por um tiro na cabeça.

Maria dos Anjos Paulino Guajajara, Lágrimas e lamentos ecoam pela mata, tendo

apenas a lua por testemunha.

Maria dos Anjos Paulino Guajajara, A ocorrência não ganha espaço, nem tem

repercussão na grande mídia. ‘Apenas mais um índio assassinado’, friamente

calculam os editores.

Onde quer que te encontres, pequenina índia, brinque em paz…

Índio todo mundo sabe o que é. Ou criou na cabeça que sabe.

Se o ponto está assegurado, a vista é sempre refém dos espelhos da história…

Estes adoravam ora um Deus que lhes prometia um novo mundo, ora um mundo que

lhes prometia um novo deus.

Estes adoravam ora um Deus que lhes prometia um novo mundo, ora um mundo que

lhes prometia um novo deus. Outras margens encontraram. Dão-nas por descobertas.

Chamam-nas ‘Nova Terra’ ao que era habitação para muitos povos.

A mediação poderia ter sido reverência, mas o medo gera dominação.

O que poderia ter sido um encontro transformou-se em terrível calamidade para

nossas mães e nossos pais.

O que poderia ter sido um encontro transformou-se em terrível calamidade para

nossas mães e pais. Mas, afinal, o que teriam enxergado nossos antepassados

naquelas superfícies de brilho reflexivos Mas, afinal, o que teriam enxergado

nossos antepassados naquelas superfícies de

brilho reflexivo? Que rosto é esse na face indígena?

A imagem do índio reproduzida na nossa sociedade dita civilizada é tal que o

índio nela não se reconhece.

Diante da insensatez dos livros da escola e da espetacularização da televisão,

confortavelmente agimos como se tudo tivesse sido dito. Esgotado.

Índio todo mundo sabe o que é. Ou criou na cabeça que sabe.

Se o ponto está assegurado, a vista é sempre refém dos espelhos da história…

Não há síntese ou imagem que não seja como nuvem passageira. Híbrida.

Provisória.

Merecem todo o nosso apreço. Mas são, ainda, bem menos do que o espírito que se

almeja alcançar.

O desafio de cultivar uma vivência sensível, aliada à reflexão acerca da

identidade cultural brasileira.

Como enriquecer uma percepção crítica e sensível da realidade histórica e

política dos povos indígenas no Brasil contemporâneo?

Recuperar ritos e tradições esquecidas.

O vermelho do urucum, o azul, quase negro, do jenipapo, e outras tantas cores

essenciais que pelo caminho, por descuido, ficaram abandonadas.

Em meio à dispersão geral dos tempos conturbados que vivenciamos, ter olhos,

cultivar um coração capaz de reconhecer e valorizar a herança poética que dos

índios recebemos.

Uma herança poética, ética, humana e estética, capaz de nos reconduzir a desejos

e aspirações imemoriais, de banhar a nossa jornada comum por este pequeno planeta

com significado, beleza, poesia e encanto.

Como usar o tempo a nosso favor? Como resgatar os valores espirituais que apenas

na contemplação, no silêncio e no repouso são estabelecidos?

A criança pequenina – cabocla, negra, indígena – que um dia, não tão distante,
fomos.

Contemplar um outro mundo possível, – onde o estranhamento cederá lugar ao

reconhecimento, diálogo e fraternização na diferença.

Se voltássemos sempre de novo a enxergar o mundo como criança, nos
surpreenderíamos menos com nossos sonhos.

Falaria que língua? O que comeria aos domingos? (mas haveria domingos?)

Quem e quantos seriam a minha família?

Que nome daria a meus sentimentos?

Minha melhor síntese está por ser realizada.

Texto adaptado da exposição “Séculos Indígenas” Organizada pelo ‘Museu do Índio’ Brasília, Outubro 2011

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