As coisas em ordem…

Os grandes antigos, quando queriam propagar altas virtudes, punham seus Estados em ordem.

Antes de porem seus Estados em ordem, punham em ordem suas famílias.

Antes de porem em ordem suas famílias, punham em ordem a si próprios.

E antes de porem em ordem a si próprios, aperfeiçoavam suas almas, procurando ser sinceros consigo mesmos e ampliavam ao máximo seus conhecimentos.

A ampliação dos conhecimentos decorre do conhecimento das coisas como elas são (e não como queremos que elas sejam).

Com o aperfeiçoamento da alma e o conhecimento das coisas, o homem se torna completo.

E quando o homem se torna completo, ele fica em ordem.

E quando o homem está em ordem, sua família também está em ordem.

E quando todos os Estados ficam em ordem, o mundo inteiro goza de paz e prosperidade.

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Choro Bandido.

Mesmo que os cantores sejam falsos como eu

Serão bonitas, não importa

São bonitas as canções

Mesmo miseráveis os poetas

Os seus versos serão bons

Mesmo porque as notas eram surdas

Quando um deus sonso e ladrão

Fez das tripas a primeira lira

Que animou todos os sons

E daí nasceram as baladas

E os arroubos de bandidos como eu

Cantando assim:

Você nasceu para mim

Você nasceu para mim

Mesmo que você feche os ouvidos

E as janelas do vestido

Minha musa vai cair em tentação

Mesmo porque estou falando grego

Com sua imaginação

Mesmo que você fuja de mim

Por labirintos e alçapões

Saiba que os poetas como os cegos

Podem ver na escuridão

E eis que, menos sábios do que antes

Os seus lábios ofegantes

Hão de se entregar assim:

Me leve até o fim

Me leve até o fim

Mesmo que os romances sejam falsos como o nosso

São bonitas, não importa

São bonitas as canções

Mesmo sendo errados os amantes

Seus amores serão bons

Desencontro.

A tua lembrança me dói tanto

Que eu canto pra ver se espanto esse mal

Mas só sei dizer um verso banal

Canta você, fala em você, é sempre igual

Sobrou desse nosso desencontro

Um conto de amor, sem ponto final

Retrato sem cot, jogado aos meus pés

E saudades fúteis, saudades frágeis, meros papéis

Não sei se você ainda é a mesma

Ou se cortou o cabelo, rasgou o que é meu

Se ainda tem saudade, e sofre como eu…

Ou tudo já passou, já tem um novo amor, já me esqueceu.

Mar e Lua.

Mar e Lua.

Amaram o amor urgente

As bocas salgadas pela maresia

As costas lanhadas pela tempestade

Naquela cidade

Distante do mar

Amaram o amor serenado

Das noturnas praias

Levantavam as saias

E se enluaravam de felicidade

Naquela cidade

Que não tem luar

Amavam o amor proibido

Pois hoje é sabido

Todo mundo conta

Que uma andava tonta

Grávida de lua

E outra andava nua

Ávida de mar

E foram ficando marcadas

Ouvindo risadas, sentindo arrepios

Olhando pro rio tão cheio de lua

E que continua

Correndo pro mar

E foram correnteza abaixo

Rolando no leito

Engolindo água

Boiando com as algas

Arrastando folhas

Carregando flores

E a se desmanchar

E foram virando peixes

Virando conchas

Virando seixos

Virando areia

Prateada areia

Com lua cheia

E à beira-mar

João e Maria.

Agora, eu era o herói

E o meu cavalo só falava inglês

A noiva do cowboy

Era você além das outras três

Eu enfrentava o batalhões

Os alemães e seus canhões

Guardava o meu bodoque

E ensaiava o rock, para as matinês

Agora, eu era o rei

Era o bedel e era também juiz

E pela minha lei

A gente era obrigado a ser feliz

E você era a princesa que eu fiz coroar

Era tão linda, de se admirar

E andava nua pelo meu país

Não, não fuja não

Finja que agora eu era o seu brinquedo

Eu era o seu peão, o seu bicho preferido

Vem, me dê a mão

A gente agora já não tinha medo

No tempo da maldade, acho que a gente nem tinha nascido

Agora era fatal que o faz-de-conta terminasse assim

Pra lá desse quintal

Era uma noite que não tem mais fim

Pois você sumiu do mundo sem me avisar

E agora eu era um louco a perguntar:

-O que é que a vida vai fazer de mim?

“Cânticos”

Lendo “Cânticos”, percebe-se Cecilia Meireles no seu mais alto grau de espiritualidade. O livro de vinte e seis poemas traz em cada palavra, a musicalidade, um bãlsamo que alivía, algo que transcende e que nos arrebata para “Os Mundos”; coisa peculiar para Ela, essa área mágica, entre o silêncio e a solidão, “onde os caleidoscópios inventaram fabulosos mundos geométricos, onde os relógios revelaram o segredo do seu mecanismo, e as bonecas o jogo do seu olhar”.

Assim é Cecilia: nascida no Rio de Janeiro, em 7 de novembro de 1901, três meses depois da morte de seu pai, e logo depois de sua mãe, ainda antes dos três anos. Essas e outras mortes ocorridas na família, acarretaram muitos contratempos, mas, ao mesmo tempo, lhe deram, desde pequenina, uma tal intimidade com a morte que docemente aprendeu essas relações entre o Efêmero e o Eterno.

Em, “Cânticos”, Cecilia Meireles nos revela, na melodia de seus versos, sua sabedoria ao mesmo tempo suave e profunda. Suas palavras, com delicadeza, permitem um olhar diferente sobre a vida: além das frustrações e da indigência do cotidiano, da dor da passagem do tempo, da necessidade angustiante e urgente de amor, da presença constante da morte… Cecilia canta a beleza da renúncia; nada é realmente nosso, porque nada permanece. Renunciar às coisas, pode ser então uma alternativa à dor.

Cada poema nos desperta para o eterno que existe por trás do efêmero, para a luz que permanece a mesma, apesar da mudança das cores. Somos convidados, tambem, a procurar por nossa própria luz, por aquilo que em nós sobrevive às desilusões e à passagem do tempo. Cada verso nos sussurra baixinho, verdades e sabedoria.
E vemos claro como a luz: tudo é apenas ilusão!

“Dize:
O vento do meu espírito
soprou sobre a vida.
E tudo que era efêmero se desfez.
E ficaste só tu, que és eterna …”