Dez mandamentos bastam.

E as belas resoluções? que tal pensar que este vai ser o melhor ano de sua vida? não depende só de você, claro, mas uma bela ajuda você pode dar. Quer tentar?

Pra começar, conserve o humor a qualquer preço. Pode parecer difícil, mas custa, na hora do assalto, dizer uma palavrinha gentil? vai aliviar as tensões e pode até ajudar a salvar a sua própria vida. Assaltante também é gente, e se rouba, não é por prazer; se pudesse escolher, preferiria mil vezes estar num veleiro em Angra tomando uma vodca, rodeado de gatinhas e com o som bem alto; mas o problema é social, portanto, parte da culpa é sua. Pense nisso, na hora em que ele estiver arrancando seus brincos. Um momento que você pode transformar, de traumatizante, numa experiência humana e fraterna. Se os brincos não forem de orelha furada, claro.

Quando seu filho chegar com as notas da recuperação (não passou, é claro), afaste os maus pensamentos. Não adianta ficar lembrando dos dois míseros pontinhos em matemática que transformaram as férias marcadas com tanta antecedência, a viagem para o nordeste, os planos, enfim da família inteira. O mais importante – quem não sabe? – é não traumatizar a criança. Já basta sua frustração (dela, a criança). Faça um discurso sério mas cheio de afeto, mostrando que a derrota faz parte da vida, e que para seu futuro (dela, a criança), é bom saber que tropeços acontecem; foi até bom ter perdido o ano, uma lição de vida.

Seja mais carinhosa do que nunca, e não acredite nas aparências. Se o garoto passa as manhãs na praia e as tardes no shopping, no fundo, bem no fundo, é porque está sofrendo tanto com o que aconteceu, que tenta esquecer. E tem, claro, plena consciência do ano perdido, do dinheiro jogado fora etc. Não agrave seus sofrimentos (dela, a criança). E dobre a mesada, para que ela não se sinta nem um pouco culpada.

Seu marido, em cuja carteira você encontrou uma camisinha importada, disse que ganhou na festa do amigo oculto. Nem pestaneje, acredite. Acredite, mas passe a exigir que ele use sempre com você, e não faça clima. Desconfiar da fidelidade do marido? coisa dos anos 50. Seja moderna, alto-astral, pra cima, esse é o segredo da felicidade.

Nas vésperas do Ano-Novo sumiu uma garrafa de uísque e seu perfume francês? seja humana: ela merece. A culpa, aliás, é sua; se tivesse dado de presente, não teria acontecido. Afinal, um ano inteiro cozinhando, lavando, passando, abrindo e fechando suas malas, vendo as roupas novas, os sapatos, os cremes, francamente, tem que entender. A cobiça faz parte dos sentimentos humanos, e querer romper o ano tomando um drinque com gelo, igualzinho ao que ela tantas vezes preparou para você e levou na bandeja, é apenas natural. No lugar de fazer um escândalo, dê uma outra garrafa, da mesma marca, presente de carnaval. Se for mesmo o máximo, cuide da ressaca dela na Quarta-feira de Cinzas. Afinal, quantas suas ela já aturou? E uma mão lava a outra, quem não sabe?

E aquela amizade que desandou, lembra? está na hora de fazer um gesto, estender a mão. Se não tiver sucesso, melhor ainda. Você fica de bonita, passa por generosa, superior, e ela continua com a fama de intratável, insuportável, pode ser melhor?

Chega de sonhar. Se você conseguir parar de fumar e começar a ginástica, já é um bom começo. Quanto ao resto, siga os dez mandamentos. Mesmo não sabendo todos de cor, algo me diz que é por aí. Ou quase.

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Satisfatório! Muito obrigada.

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