A terapia e os livros.

A cidade era Paris e ali estava nossa equipe – cinegrafista, produtora e eu – gravando mais um programa de TV. Fazia um frio intenso e a chuva mansa, aquela garoa insistente que no interior de Minas costumamos chamar de “chuva de molhar bobo”, nos castigava havia umas três horas. A certa altura, eu disse a Marli (além de produtora, amiga de longa data): “Que dia perfeito pra ficar na cama com um policial e um cobertor bem quentinho!”. O cinegrafista, que me conhecia pouco e estava viajando conosco pela primeira vez, olhou assustadíssimo. Mas Marli, sempre atenta, detectou o mal-entendido e prontamente esclareceu: “A Leila quis dizer um livro policial. Ela é viciada em policiais, ou melhor, em livros policiais”.
Assim tem sido, desde sempre. Sou capaz de trocar uma tarde nas ruas de Paris por algumas horas no quarto do hotel, lendo um bom policial. Por um bom policial, deixo de contemplar a paisagem nas janelas dos ônibus, trens e aviões. Volto mais cedo de festas e jantares (quando sou obrigada a ir). Abrevio conversas com amigos, interrompo conversas telefônicas, deixo que os e-mails acumulem, jogo fora o jornal que não cheguei a ler. Pouquíssimas coisas na vida me proporcionam o prazer que um policial, ou um livro policial, costuma me proporcionar.
Por isso mesmo fiquei extremamente feliz, outro dia, quando minha amiga mais querida, que nunca teve o hábito de ler, me falou sobre a recomendação que tinha acabado de ouvir de sua psiquiatra. Ela me telefonou de uma grande livraria de São Paulo e disse que estava ali por recomendação médica. “Como assim?”, perguntei. Minha amiga, que está se tratando de uma depressão e já começa a melhorar, explicou que sua terapeuta sugeriu, como parte do tratamento, que ela tente desenvolver o hábito da leitura e, para começar, sua indicação tinha sido o gênero policial. O consultório da psiquiatra fica perto da livraria e ela recomendou que sua paciente passasse ali logo depois da consulta e visitasse a seção de livros policiais. A terapeuta não entrou em detalhes sobre a escolha do gênero – disse apenas que era um tipo de leitura envolvente. Minha amiga seguiu a prescrição, já está em seu segundo livro e, o que é melhor, tem lido com imenso prazer.
Sempre acreditei que, além de companhia, livros são remédio. Curam dores desnecessárias, provocam outras que precisamos ter, acalmam, distraem e, ao mesmo tempo, despertam inquietações e angústias que são essenciais para o (bem) viver. Um bom livro nos torna pessoas melhores, levanta indagações sem as quais o espírito perde o tônus, estimula o cérebro, ensina a pensar e educa o sentir. Até os policiais?, podem perguntar alguns. Sim, até eles. Não há espaço aqui para “defender” os livros policiais daqueles que acham que eles precisam de defesa. Mas garanto que há poucas coisas tão prazerosas e estimulantes quanto acompanhar uma trama inteligente e bem construída, seguir uma investigação que se desdobra em muitas e, enquanto se desdobra, constrói retratos precisos do ser humano com o que ele tem de melhor e, na maior parte das vezes, de não tão bom assim.
Se eu morasse em São Paulo, acho que me trataria com a psiquiatra da minha amiga só para ter o privilégio de conhecer uma terapeuta que ousa receitar livros policiais como acompanhamento para a fluoxetina. E, para quem nunca leu um Harlan Coben, um Nicci French (que, na verdade, é o pseudônimo de um casal), um Dennis Lehanne ou mesmo uma Agatha Christie, garanto: além de remédio, passar uma tarde de chuva na cama com um bom policial é programa cinco estrelas. Com um detalhe: não tem que ser em Paris.

Leila Ferreira | jornalista
* autora do livro A arte de ser leve, Editora Globo

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Satisfatório! Muito obrigada.

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