Até no céu?

A cena é clássica. Você chega para um encontro em um café ou restaurante com aquela amiga querida (ou aquele amigo) que não via há muito tempo, vocês fazem o pedido logo, para poder conversar sem serem interrompidos pelo garçom e, assim que a conversa tão esperada começa, o celular toca – o seu ou o da outra pessoa. Sim, porque os dois aparelhos, estrategicamente posicionados ao lado dos talheres, estão ligados. Aí, como se não soubessem que aparelhos ligados eventualmente tocam, vocês primeiro trocam um olhar desconcertado, de quem foi apanhado de surpresa. Depois, o dono do aparelho encara o celular com ar de reprovação, como se a culpa fosse dele, o aparelho, e deixa que toque mais umas duas vezes, como se estivesse tomando a decisão de atender ou não. Puro jogo de cena. A outra pessoa sabe o que deve fazer nessa hora e faz: com um gesto qualquer, dá o sinal verde para que o amigo atenda e passa a contemplar o teto até que a conversa telefônica acabe, ou melhor, a primeira conversa telefônica, porque outras virão, certamente. Ninguém coloca dois telefones celulares ao alcance dos ouvidos e das mãos impunemente. Em algum momento, ou em vários, eles tocarão. E a conversa há tanto tempo esperada, bom… espera mais um pouco. Fazer o quê?

O fato é que, desde que o celular passou a nos acompanhar onde quer que estejamos, inclusive em velórios (qual foi o último velório em que você esteve sem que nenhum celular tocasse?), conversar passou a ser, mais do que nunca, uma arte. Conversa-se, hoje, alinhavando pensamentos entre uma e outra interrupção. Fala-se, e ouve-se, em (nada suaves) prestações. Antes, conversas criavam climas – e se alimentavam deles. Hoje, sobrevivem a intempéries. O fio da meada se perde em questão de segundos e novos novelos vão surgindo, aleatórios e desencontrados, criando diálogos que na verdade são monólogos alternados. As frases não fluem. O raciocínio não se completa. E o prazer da conversa, claro, se perde.

Outro dia, ouvi uma mãe contando que sua filha de quatro anos tinha perguntado a ela se no céu existem celulares. “Acho que sim”, foi sua resposta, “mas só quando a gente chegar lá é que vai ter certeza”. Torci, em silêncio, para que a previsão da jovem mãe não se confirme. Ou que, pelo menos, lá no céu a utilização dos celulares seja mais comedida. Poder conversar com os amigos como nos velhos tempos, sem ter que dividir as histórias em capítulos e sendo capaz de saborear os sentimentos que acompanham as boas conversas, é uma alegria que, na terra, anda difícil. Quem sabe na esfera celeste?…

Leila Ferreira | Jornalista

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