Tão fundo o silêncio!

É tão fundo o silêncio entre as estrelas.
Nem o som da palavra se propaga,
Nem o canto das aves milagrosas.
Mas lá, entre as estrelas, onde somos
Um astro recriado, é que se ouve
O íntimo rumor que abre as rosas.

José Saramago
in Provavelmente Alegria

‘Retrato do poeta quando jovem’

 
 
Há na memória um rio onde navegam

Os barcos da infância, em arcadas

De ramos inquietos que despregam
Sobre as águas as folhas recurvadas.

Há um bater de remos compassado
No silêncio da lisa madrugada,
Ondas brancas se afastam para o lado
Com o rumor da seda amarrotada.

Há um nascer do sol no sítio exato,
À hora que mais conta duma vida,
Um acordar dos olhos e do tacto,
Um ansiar de sede inextinguida.

Há um retrato de água e de quebranto
Que do fundo rompeu desta memória,
E tudo quanto é rio abre no canto
Que conta do retrato a velha história.

José Saramago

 
Premio Nobel em literatura- 1.998.
Nasceu em Azinhaga, Golegã, Portugal. 16 de Novembro de 1922-
Faleceu (hoje) 18 de junho de 2010- Lanzarote, Ilhas Canárias, Espanha.