Tristeza!!!


És triste. Que mal te oprime?
Que sombrio pensamento,
Como nuvem procelosa,
Ponto negro no horizonte,
Vem pousar, mulher formosa,
Em tua formosa fronte?

És triste. E pálida. As cores,
De vivas que eram outrora,
Como pétalas das flores
Que o tempo amareleceu,
Ora vejo-as apagadas…
E ao teu olhar peregrino
Fecham pálpebras cansadas
À luz que tinhas do céu,

A ausência de brilho e cores
E essa mórbida magreza,
Esse teu ar de abatida,
Com que, se perdes em vida,
Vens a ganhar em beleza,
Que são? Remorso de um crime
De certo não é? Responde,
Dize, que mágoa te oprime?

Teu silêncio obstinado
Tudo me explica.., já sei..
Mísero anjo infortunado,
Li tu’alma e adivinhei

Guardavas ao que primeiro
Tocasse a flor dos teus anos,
Não esse amor passageiro,
Das almas vãs, mas o amor
Profundo, intenso, exclusivo,
O amor que sonha e não dorme,
O amor sincero, o amor vivo,
Os transportes, a ternura,
De um coração palpitante,
Os desejos de ventura,
Ambiciosa fantasia,
As ânsias d’alma abundante,
Em suma — a felicidade:
Tal foi o sonho primeiro
Da tua primeira idade.

Em vez de uma alma irmã
Que a tua alma compreendesse,
Que achaste? Boçal figura,
Matéria, máquina, prosa,
Toda cegueira e espessura,
Corpo sem alma e sem vida,
E a esperança radiosa
Da vida que procuravas,
A ternura que guardavas,
Em teus chorados quinze anos.
Tudo arrefeceu, criança,
Ante os frios desenganos.
Entre a presente agonia
E o tempo em que, solta, aérea,
Tua ardente fantasia
A vida mágica e etérea

Evocava e embelecia,
Que tempo vai! Longo espaço
De solidão, de tristeza,
De ternura e de cansaço.
Uma quase eternidade
A contar na mente acesa:
Esperanças da incerteza,
Certezas da realidade!

Enfim, à morte completa
Da ilusão que alimentavas,
Olhaste pálida e inquieta
Para o futuro… e não viste
Nada do que procuravas
E nada do que pediste,
Olhaste ainda — e confusa
Viste o amor, a paz alheia,
Os que logravam sentir,
E tu, mísera reclusa,
Da prisão em que te achaste
Nem já te é dado fugir!

E agora, fria, abatida,
Secas as rosas do rosto,
Olhos já sem luz, nem vida,
Depois de tanta provança,
Tua mente em vão procura
A derradeira esperança:
O frio da sepultura…

Machado de Assis

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