A Vingança do Espelho!

“Voltei, um dia, à casa onde nasci.
Parei junto ao umbral,
Tentando ver, na tela da memória,
A história dos meus dias distantes.
O meu piano negro, onde eu dedilhava,
O quarto de mamãe, uma estante,
A janela por onde Fifinho dizia-me bom dia,
O meu gato,
As minhas bonecas,
Nada mais existe do que existiu outrora.
Outros nomes,
Outra gente.
Mas, de repente, vi um espelho pendurado na parede.
Aquele mesmo espelho onde eu, faceira,
Por uma tarde inteira, mirava o próprio rosto, fascinada.
Os meus cabelos negrejando, azulados ao sol,
No riso que plantava em minha boca.
Pela hora do arrebol, tentei aproximar-me, assim, do espelho,
Porém, diante dele, vi um vulto estranho de mulher.
Aonde foi que vi aquele rosto?
Aonde foi que notei a mim mesma?
Aquele olhar sem brilho,
Aquela boca pálida…
Esperei que a intrusa se afastasse,
mas… ai, sempre lá estava, como uma maldição,
A figura tão trágica, lembrando uma decepção.
Súbito, recuei num grito,
E, num grito de pavor e de horror,
Vi que a mulher que o espelho refletia
Era eu, era eu mesma…
Os meus cabelos negros se apagaram,
A minha silhueta gentil se transformou,
Ah, como ainda sinto brilhar dentro de mim a primavera!
Se a minha vida inteira eu vivi à espera de um bem que não chegou,
Esses lábios trêmulos, marcados por beijos tão fatais,
Essas mãos que embalaram um filho pequeno,
Apertado, ainda, contra o peito,
Querem conter um temporal desfeito…
Ah, morre, coração…
Maldito coração que só sofreu,
E jamais esqueceu…
Baionetas de luz varam agora o espelho,
No reflexo roxo do poente,
Irreverente,
A repetir, alucinadamente:
Não, não, não! É mentira! É mentira!
Joguei o espelho ao chão.
O espelho estilhacei,
E sangrei os dedos…
E, como uma canção de cristal que eu parti,
Vi minha própria imagem refletida,
Multiplicada,
Escarnecida,
Ali, então,
Nos cacos que rolaram pelo chão…”

Zezé Macedo.

Aos Namorados do Brasil!

Dai-me, Senhor, assistência técnica
para eu falar aos namorados doBrasil.

Será que namorado algum escuta alguém?
Adianta falar a namorados?
E será que tenho coisas a dizer-lhes
que eles não saibam,
eles que transformam a sabedoria universal em divino esquecimento?

Adianta-lhes, Senhor,
saber alguma coisa,
quando perdem os olhos
para toda paisagem ,
perdem os ouvidos
para toda melodia
e só vêem, só escutam
melodia e paisagem de sua própria fabricação?

Cegos, surdos, mudos – felizes!
São os namorados enquanto namorados.
Antes, depois são gente como a gente, no pedestre dia-a-dia.
Mas quem foi namorado sabe que outra vez voltará à sublime invalidez
que é signo de perfeição interior.

Namorado é o ser fora do tempo,
fora de obrigação e CPF,
ISS, IFP, PASEP,INPS.
Os códigos, desarmados,
retrocedem de sua porta,
as multas envergonham-se
de alvejá-lo, as guerras, os tratados
internacionais encolhem o rabo
diante dele, em volta dele.
O tempo, afiando sem pausa a sua foice, espera que o namorado desnamore para sempre.

Mas nascem todo dia namorados
novos, renovados, inovantes,
e ninguém ganha ou perde essa batalha.
Pois namorar é destino dos humanos,
destino que regula nossa dor,
nossa doação, nosso inferno gozoso.

E quem vive, atenção:
cumpra sua obrigação de namorar,
sob pena de viver apenas na aparência.
De ser o seu cadáver itinerante.
De não ser. De estar, e nem estar.

O problema, Senhor, é como aprender, como exercer a arte de namorar,
que audiovisual nenhum ensina,
e vai além de toda universidade.
Quem aprendeu não ensina.
Quem ensina não sabe.
E o namorado só aprende,
sem sentir que aprendeu,
por obra e graça de sua namorada.

A mulher antes e depois da Bíblia
é pois enciclopédia natural
ciência infusa, inconciente,
infensa a testes,
fulgurante no simples manifestar-se, chegado o momento.

Há que aprender com as mulheres
as finezas finíssimas do namoro.
O homem nasce ignorante,
vive ignorante, às vezes morre
três vezes ignorante de seu coração
e da maneira de usá-lo.

Só a mulher (como explicar?)
entende certas coisas
que não são para entender.
São para aspirar como essência,
ou nem assim.
Elas aspiram o segredo do mundo.

Há homens que se cansam depressa de namorar,
outros que são infiéis à namorada.
Pobre de quem não aprendeu direito,
ai de quem nunca estará maduro para aprender,
triste de quem não merecia,
não merece namorar.

Pois namorar não é só juntar duas atrações no velho estilo ou no moderno estilo,
com arrepios, murmúrios, silêncios,
caminhadas, jantares, gravações,
fins-de-semana, o carro à toda ou a 80,
lancha, piscina, dia-dos-namorados, foto colorida, filme adoidado,
rápido motel onde os espelhos
não guardam beijo e alma de
ninguém.

Namorar é o sentido absoluto
que se esconde no gesto muito simples,
não intencional, nunca previsto,
e dá ao gesto a cor do amanhecer,
para ficar durando, perdurando,
som de cristal na concha
ou no infinito.

Namorar é além do beijo e da sintaxe,
não depende de estado ou condição.
Ser duplicado, ser complexo,
que em si mesmo se mira e se desdobra, o namorado, a namorada
não são aquelas mesmas criaturas
que cruzamos na rua.

São outras, são estrelas remotíssimas,
fora de qualquer sistema ou situação.
A limitação terrestre,
que os persegue,
tenta cobrar (inveja)
o terrível imposto de passagem:

“Depressa! Corre! Vai acabar!
Vai fenecer!
Vai corromper-se tudo em flor esmigalhada na sola dos sapatos…”
Ou senão:
“Desiste! Foge! Esquece!”

E os fracos esquecem.
Os tímidos desistem.
Fogem os covardes.
Que importa? A cada hora nascem
outros namorados para a novidade
da antiga experiência.
E inauguram cada manhã
(namoramor)
o velho, velho mundo renovado!

Carlos Drummond de Andrade

A Terra.

Também eu quero abrir-te e
semear
Um grão de poesia no teu
seio!
Anda tudo a lavrar,
Tudo a enterrar centeio,
E são horas de eu pôr a
germinar
A semente dos versos que
granjeio.

Na seara madura de amanhã
Sem fronteiras nem dono,
Há de existir a praga da
milhã,
A volúpia do sono
Da papoula vermelha e
temporã,
E o alegre abandono
De uma cigarra vã.

Mas das asas que agite,
O poema que cante
Será graça e limite
Do pendão que levante
A fé que a tua força
ressuscite!

Casou-nos Deus, o mito!
E cada imagem que me vem
É um gomo teu, ou um
grito
Que eu apenas repito
Na melodia que o poema
tem.

Terra, minha aliada
Na criação!
Seja fecunda a vessada,
Seja à tona do chão,
Nada fecundas, nada,
Que eu não fermente
também de inspiração!

E por isso te rasgo de
magia
E te lanço nos braços
a colheita
Que hás de parir depois…
Poesia desfeita,
Fruto maduro de nós dois.

Terra, minha mulher!
Um amor é o aceno,
Outro a quentura que se
quer
Dentro dum corpo nu,
moreno!

A charrua das leivas
não concebe
Uma bolota que não dê
carvalhos;
A minha, planta orvalhos…
Água que a manhã bebe
No pudor dos atalhos.

Terra, minha canção!
Ode de pólo a pólo
erguida
Pela beleza que não sabe
a pão
Mas ao gosto da vida!

Miguel Torga

Um Poema.

Não tenhas medo, ouve:
É um poema
Um misto de oração e de feitiço…
Sem qualquer compromisso,
Ouve-o atentamente,
De coração lavado.
Poderás decorá-lo
E rezá-lo
Ao deitar
Ao levantar,
Ou nas restantes horas de tristeza.
Na segura certeza
De que mal não te faz.
E pode acontecer que te dê paz…

Miguel Torga.

Desfecho.

Não tenho mais palavras.
Gastei-as a negar-te…
(Só a negar eu pude combater
O terror de te ver
Em toda a parte).

Fosse qual fosse o chão da caminhada,
Era certa a meu lado
A divina presença impertinente
Do teu vulto calado e paciente…

E lutei, como luta um solitário
Quando alguém lhe perturba a solidão.
Fechado num ouriço de recusas,
Soltei a voz, arma que tu não usas,
Sempre silencioso na agressão.

Mas o tempo moeu na sua mó
O joio amargo do que te dizia…
Agora somos dois obstinados,
Mudos e malogrados,
Que apenas vão a par na teimosia.

Miguel Torga.

Súplica!

Agora que o silêncio é um mar
sem ondas,
E que nele posso navegar sem rumo,
Não respondas
Às urgentes perguntas
Que te fiz.
Deixa-me ser feliz
Assim,
Já tão longe de ti como de mim.

Perde-se a vida a desejá-la tanto.
Só soubemos sofrer, enquanto
O nosso amor
Durou.
Mas o tempo passou,
Há calmaria…
Não perturbes a paz que me foi dada.
Ouvir de novo a tua voz seria
Matar a sede com água salgada.

Miguel Torga.

Manhã.

Fresca manhã da vida, recomeço
Doutros orvalhos onde o sol se molha.
Nova canção de amor e novo preço
Do ridente triunfo que nos olha.

Larga e límpida luz donde se vê
Tudo o que não dormiu e germinou;
Tudo o que até de noite luta e crê
Na força eterna que o semeou.

Um aceno de paz em cada flor;
Um convite de guerra em cada espinho;
E os louros do perfeito vencedor
À espera de quem passa no caminho.

Miguel Torga