Impressões do gesto!

A tua dança indefinida,
que me retém extática, surpresa,
guarda em si resumida
a harmonia orquestral da natureza,
a euritmia da Vida.

Danças, os membros novamente agitas,
todo teu ser parece-me tomado
por convulsões de dores infinitas…
E desse trágico crescendo de gestos
que enchem o silêncio de ais,
vais smorzando,
descendo,
como que por encanto,
presa de um místico quebranto…
Danças e cuido estar em ti me vendo.

Os teus meneios são cheios
de meus anseios;
a tua dança é a exteriorização
de tudo quanto sinto:
minha imaginação
e meu instinto
movem-se nela alternadamente;
minha volúpia, vejo-a torça, no ar,
quando teu corpo lânguido, indolente,
sensibiliza a quietação do ambiente,
ora a crescer, ora a minguar
numa flexuosidade de serpente
a se enroscare a se desenroscar.

Em tua dança agitada ou calma,
de adejos cheia e cheia de elastérios,
materializa-se minha alma,
pois nos teus membros leves, quase etéreos,
eu contemplo os meus gestos interiores,
meus prazeres, meus tédios, minhas dores!

 

Gilka Machdo.
Publicado no livro Mulher nua: poesia (1922).

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