“Cânticos”

Lendo “Cânticos”, percebe-se Cecilia Meireles no seu mais alto grau de espiritualidade. O livro de vinte e seis poemas traz em cada palavra, a musicalidade, um bãlsamo que alivía, algo que transcende e que nos arrebata para “Os Mundos”; coisa peculiar para Ela, essa área mágica, entre o silêncio e a solidão, “onde os caleidoscópios inventaram fabulosos mundos geométricos, onde os relógios revelaram o segredo do seu mecanismo, e as bonecas o jogo do seu olhar”.

Assim é Cecilia: nascida no Rio de Janeiro, em 7 de novembro de 1901, três meses depois da morte de seu pai, e logo depois de sua mãe, ainda antes dos três anos. Essas e outras mortes ocorridas na família, acarretaram muitos contratempos, mas, ao mesmo tempo, lhe deram, desde pequenina, uma tal intimidade com a morte que docemente aprendeu essas relações entre o Efêmero e o Eterno.

Em, “Cânticos”, Cecilia Meireles nos revela, na melodia de seus versos, sua sabedoria ao mesmo tempo suave e profunda. Suas palavras, com delicadeza, permitem um olhar diferente sobre a vida: além das frustrações e da indigência do cotidiano, da dor da passagem do tempo, da necessidade angustiante e urgente de amor, da presença constante da morte… Cecilia canta a beleza da renúncia; nada é realmente nosso, porque nada permanece. Renunciar às coisas, pode ser então uma alternativa à dor.

Cada poema nos desperta para o eterno que existe por trás do efêmero, para a luz que permanece a mesma, apesar da mudança das cores. Somos convidados, tambem, a procurar por nossa própria luz, por aquilo que em nós sobrevive às desilusões e à passagem do tempo. Cada verso nos sussurra baixinho, verdades e sabedoria.
E vemos claro como a luz: tudo é apenas ilusão!

“Dize:
O vento do meu espírito
soprou sobre a vida.
E tudo que era efêmero se desfez.
E ficaste só tu, que és eterna …”

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Cânticos-I


Não queiras ter pátria.
Não dividas a Terra.
Não dividas o Céu.
Não arranques pedaços ao mar.
Não queiras ter.
Nasce bem alto,
Que as coisas todas serão tuas.
Que alcançarás todos os horizontes.
Que o teu olhar, estando em toda parte
Te ponha em tudo,*
Como Deus.

* verso-base: Estarás em tudo,

II


Não sejas o de hoje.
Não suspires por ontens …
Não queiras ser o de amanhã.
Faze-te sem limites no tempo.
Vê a tua vida em todas as origens.
Em todas as existências.
Em todas as mortes.
E sabe que serás assim para sempre.
Não queiras marcar a tua passagem.
Ela prossegue:
É a passagem que se continua.
É a tua eternidade …
É a eternidade.
És tu.

III


Não digas onde acaba o dia.
Onde começa a noite.
Não fales palavras vãs.
As palavras do mundo.
Não digas onde começa a Terra,
Onde termina o céu.
Não digas até onde és tu.
Não digas desde onde é Deus.
Não fales palavras vãs.
Desfaze-te da vaidade triste de falar.
Pensa, completamente silencioso.
Até a glória de ficar silencioso,
Sem pensar.

IV


Adormece o teu corpo com a música da vida.
Encanta-te.
Esquece-te.
Tem por volúpia a dispersão.
Não queiras ser tu.
Quere ser a alma infinita de tudo.
Troca o teu curto sonho humano
Pelo sonho imortal.
O único.
Vence a miséria de ter medo.
Troca-te pelo Desconhecido.
Não vês, então, que ele é maior?
Não vês que ele não tem fim?
Não vês que ele és tu mesmo?
Tu que andas esquecido de ti?*

*verso-base: Tu que te esqueceste de ti?

V

Esse teu corpo é um fardo.
É uma grande montanha abafando-te.
Não te deixando sentir o vento livre
Do Infinito.
Quebra o teu corpo em cavernas
Para dentro de ti rugir
A força livre do ar.
Destrói mais essa prisão de pedra.
Faze-te recepo.
Âmbito.
Espaço.
Amplia-te.
Sê o grande sopro
Que circula…

VI


Tu tens um medo:
Acabar.
Não vês que acabas todo o dia.
Que morres no amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que te renovas todo o dia.
No amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que és sempre outro.
Que és sempre o mesmo.
Que morrerás por idades imensas.
Até não teres medo de morrer.

E então serás eterno.