Motivo – Cecilia Meireles.

“Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:sou poeta.
Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.
Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
– não sei, não sei.
Não sei se fico ou passo.
Sei que canto.
E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:- mais nada.”

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Canção do Mundo Acabado – Cecilia Meireles.


“Meus olhos andam sem sono,
somente por te avistarem
de uma tão grande distância
De altos mastros ainda rondo
tua lembrança nos ares.
O resto é sem importância.
Certamente, não há nada de ti,
sobre este horizonte,
desde que ficaste ausente.
Mas é isso o que me mata:
sentir que estás não sei onde,
mas sempre na minha frente.
Não acrediteis em tudo
que disser a minha boca
sempre que te fale ou cante.
Quando não parece, é muito,
quanto é muito, é muito pouco,
e depois nunca é bastante…
Foste o mundo sem ternura
em cujas praias morreram
meus desejos de ser tua.
A água salgada me escuta
e mistura nas areias
meu pranto e o pranto da lua.
Penso no que me dizias,
e como falavas, e como te rias…
Tua voz mora no mar.
A mim não fizeste rir
e nunca viste chorar.
(Porque o tempo sempre foi longo para me esqueceres
e curto para te amar.)”

Poema da Duvida – Cecilia Meireles.

Nesta sombra em que vivo,
Sonho que me apareceras,
Numa hora extática…
E ando a esperar-te, noite por noite…
Sonho que te hei de ver,
Todo vestido de oiro,
Com os cabelos carregados de estrelas
E as mãos enfeitadas de luas…
Sonho que desceras a ver-me,
De tanto me ouvires
Cantar e louvar
O teu nome…
Nesta sombra em que vivo,
De te evocar,
É como se já tivesses vindo…
Como se houvesse visto os teus olhos,
Que devem ser a própria alma da luz…
Como se houvesse adorado o teu coração,
Onde morrem todos os corações que viveram
E de onde nascem todos os corações…
Nesta sombra em que vivo,
Sofro por seres assim irreal,
Assim tão além do que se pode pensar…
Sofro porque nem sei
Quando haverá, nos meus olhos,
Luz com que te veja
E com que te adore…
Nesta sombra em que vivo,
Por que me não apareces,
Numa hora extática,
Se sabes que te ando a esperar,
Noite por noite!…

Para Que A Escrita Seja Legível – Cecilia Meireles.

Para que a escrita seja legível,
é preciso dispor os instrumentos,
exercitar a mão,
conhecer todos os caracteres.
Mas para começar a dizer
alguma coisa que valha a pena,
é preciso conhecer todos os sentidos
de todos os caracteres,
e ter experimentado em si próprio
todos esses sentidos,
e ter observado no mundo
e no transmundo
todos os resultados dessas experiências…

Anatomia – Cecilia Meireles.

É triste ver-se o homem por dentro:
tudo arrumado, cerrado, dobrado
como objetos num armário.
A alma, não!
É triste ver-se o mapa das veias,
e esse pequeno mar que faz trabalhar seus rios
como por obscuras aldeias
indo e vindo, a carregar vida, estranhos escravos.
Mas a alma?
É triste ver-se a elétrica floresta
dos nervos: para estrelas de olhos e lagrimas,
para a inquieta brisa da voz,
para esses ninhos contorcidos do pensamento.
E a alma?
É triste ver-se que de repente se imobiliza
esse sistema de enigmas,
de inexplicado exercício,
antes de termos encontrado a alma.
Pela alma choramos…
Procuramos a alma…
Queríamos alma…

(O Estudante Empírico)