Mulheres Apaixonadas.

O que as pessoas são capazes de fazer por uma paixão?
Tudo? Bem, praticamente tudo.

Os apaixonados vivem em outra dimensão, e só se entendem com pessoas também apaixonadas.

Alguém, em seu estado normal, pode entender que no tempo em que ainda não havia telefone celular – outro dia, aliás -, havia quem passasse o dia inteiro em casa, porque ele podia telefonar? E pior: sem poder falar no telefone, para não ocupar a linha? Pois fale com qualquer mulher da época pré-celular, e ela terá muitas histórias para contar sobre – todas ab-so-lu-ta-men-te iguais.

Porque as mulheres, quando se apaixonam, são todas iguais; se você der corda, são capazes de passar horas contando como ele é, o que falou, em que tom, como era o olhar, e perguntando o que você acha. Experimente perguntar à sua amiga como foi que eles se conheceram, como tudo começou. E pode pegar um livro, disfarçadamente, pois ela vai falar durante horas, sem que você precise dizer uma só palavra.

Elas pegam um avião – sem nenhuma condição financeira -, para encontrar o amado em outro continente e passar uma noite, só uma, com ele. É capaz também de pegar um avião para uma cidade distante só para telefonar de lá, fazendo todos os charmes. Ela mente para o chefe com a cara mais inocente, e adoece a tia ou a mãe sem nenhum escrúpulo, arriscando a reputação e talvez o futuro, para ficar com ele mais algumas horas na manhã de segunda-feira.

A esperteza de uma mulher apaixonada não tem limites; se ele não é totalmente livre, digamos assim, ela é capaz de descobrir o nome da mulher, a profissão, o número do telefone do trabalho, os nomes e as idades dos filhos em mi-nu-tos. Se não têm dinheiro para fazer um lindo jantarzinho, elas se viram: são capazes de trocar um anel de ouro por uma garrafa de uísque, uma bolsa por um buquê de flores, para criar um clima mais romântico, e o melhor: tudo dá sempre certo.

Para uma mulher apaixonada é fundamental ter uma amiga com poucos escrúpulos, muito tempo vago, hábil e capaz de fazer to-dos os papéis, se for preciso – e sempre é. É ela quem vai ligar à noite, disfarçando a voz e dizendo que é engano, para saber se ele está em casa ou não, é ela também que vai descolar quatro ingressos para ver a peça que sabe (conseguiu saber) que ele está louco para ver. Essa amiga é quem vai dizer, distraidamente, que há um homem louco por você, que manda flores todos os dias e quer levá-la para Nova Iorque, Paris, para a lua – e é riquíssimo, claro – e para fazer seu cartaz. Essa amiga é capaz de inventar qual-quer pretexto para dar uma festa, só para você poder usar seu vestido mais sexy – e poder convidá-lo, claro. Quem tem uma amiga assim tem tudo na vida, e se tiver um amigo – pois às vezes é preciso uma voz de homem -, aí é o paraíso. São raros esses amigos tão preciosos, mas que eles existem, existem.

Uma mulher apaixonada é capaz dos maiores desvarios; se o telefone dele estiver ocupado durante muito tempo ela começa a desconfiar, e é capaz de telefonar para aquela mulher de quem desconfia – e sabe o telefone de cor, claro; se o dela também estiver ocupado, é elementar: eles estão falando entre si, claro.

Ah, uma mulher apaixonada: por mais séria que seja, por mais responsável diante do mundo, vira uma doidivanas quando um homem consegue atingir seu coração.
Exemplo: se tem uma atuação na televisão consegue sempre encaixar uma palavra, nem que seja uma só, para que ele saiba que está pensando nele naquele momento – e isso é o mínimo do que é capaz.

Elas são maravilhosas, tão diferentes todas e tão iguais; e não existe nada melhor do que ver duas apaixonadas falando de seus amores. Aos 20, 30, 40, 50 ou 60, o papo entre duas adolescentes ou de duas mulheres várias vezes casadas e com vários filhos de vários maridos, não há uma só diferença.

E viva elas; afinal, não há maior estado de graça do que uma mulher profunda (ou mesmo superficialmente) apaixonada.

Se você tem uma ou duas amigas assim, aproveite para ficar bem perto e sentir o verdadeiro sentido da vida.

Aproveite mesmo, antes que passe a ambulância do manicômio e o enfermeiro, ouvindo aqueles desvarios, leve as duas e mande botar em camisa de força.

A única chance que elas têm de escapar é se o psiquiatra também estiver apaixonado; nesse caso, o papo vai se estender até o dia clarear.

A três, é claro.

P.S. O que seria do mundo sem as mulheres?

Eu me rendo…

Quantas mentiras nos contaram; foram tantas, que a gente bem cedo começa a acreditar e, ainda por cima, a se achar culpada por ser burra, incompetente e sem condições de fazer da vida uma sucessão de vitórias e felicidades.

Uma das mentiras:
É a que nós, mulheres, podemos conciliar perfeitamente as funções de mãe, esposa, companheira e amante, e ainda por cima ter uma carreira profissional brilhante.

É muito simples: não podemos.

Não podemos; quando você se dedica de corpo e alma a seu filho recém-nascido, que na hora certa de mamar dorme e que à noite, quando devia estar dormindo, chora com fome, não consegue estar bem sexy quando o marido chega, para cumprir um dos papéis considerados obrigatórios na trajetória de uma mulher moderna: a de amante.

Aliás, nem a de companheira; quem vai conseguir trocar uma idéia sobre a poluição da Baía de Guanabara se saiu do trabalho e passou no supermercado rapidinho para comprar uma massa e um molho já pronto para resolver o jantar, e ainda por cima está deprimida porque não teve tempo de fazer uma escova?

Mas as revistas femininas estão aí, querendo convencer as mulheres – e os maridos – de que um peixinho com ervas no forno com uma batatinha cozida al dente, acompanhado por uma salada e um vinhozinho branco é facílimo de fazer – sem esquecer as flores e as velas acesas, claro, e com isso o casamento continuar tendo aquele toque
de glamour fun-da-men-tal para que dure por muitos e muitos anos.

Ah, quanta mentira!

Outra grande, diz respeito à mulher que trabalha; não a que faz de conta que trabalha, mas a que trabalha mesmo. No começo, ela até tenta se vestir no capricho, usar sapato de salto e estar sempre maquiada; mas cedo se vão as ilusões. Entre em qualquer local de trabalho pelas 4 da tarde e vai ver um bando de mulheres maltratadas,
com o cabelo horrendo, a cara lavada, e sem um pingo do glamour – aquele – das executivas da Madison.

Dizem que o trabalho enobrece, o que pode até ser verdade. Mas ele também envelhece, destrói e enruga a pele, e quando se percebe a guerra já está perdida.

Não adianta: uma mulher glamourosa e pronta a fazer todos os charmes – aqueles que enlouquecem os homens – precisa, fundamentalmente, de duas coisas: tempo e dinheiro.

Tempo para hidratar os cabelos, lembrar de tomar seus 37 radicais livres, tempo para ir à hidroginástica, para ter uma massagista tailandesa e um acupunturista que a relaxe; tempo para fazer musculação, alongamento, comprar uma sandália nova para o verão, fazer as unhas, depilação; e dinheiro para tudo isso e ainda para pagar uma excelente empregada – o que também custa dinheiro.

É muito interessante a imagem da mulher que depois do expediente vai ao toalete – um toalete cuja luz é insuportavelmente branca e fria, retoca a maquiagem, coloca os brincos, põe a meia preta que está na bolsa desde de manhã e vai, alegremente, para uma happy hour.

Aliás, se as empresas trocassem a iluminação de seus elevadores e de seus banheiros por lâmpadas âmbar, os índices de produtividade iriam ao infinito; não há auto-estima feminina que resista quando elas se olham nos espelhos desses recintos.

Felizes são as mulheres que têm cinco minutos – só cinco – para decidir a roupa que vão usar no trabalho; na luta contra o relógio o uniforme termina sendo preto ou bege, para que tudo combine sem que um só minuto seja perdido.

Mas tem as outras, com filhos já crescidos: essas, quando chegam em casa, têm que conversar com as crianças, perguntar como foi o dia na escola, procurar entender por que elas estão agressivas, por que o rendimento escolar está baixo.

E ainda tem as outras que, com ou sem filhos, ainda têm um namorado que apronta, e sem o qual elas acham que não conseguem viver . Segundo um conhecedor da alma humana, só existem três coisas sem as quais não se pode viver: ar, água e pão.

Convenhamos que é difícil ser uma mulher de verdade; impossível, eu diria.

Parabéns para quem consegue fingir tudo isso…

Duas bolas, por favor.

Não há nada que me deixe mais frustrada do que pedir sorvete de sobremesa,contar os minutos até ele chegar e aí ver o garçom colocar na minha frente uma bolinha minúscula do meu sorvete preferido.
Uma só.
Quanto mais sofisticado o restaurante, menor a porção da sobremesa.
Aí a vontade que dá é de passar numa loja de conveniência, comprar um litro de sorvete bem cremoso e saborear em casa com direito a repetir quantas vezes a gente quiser, sem pensar em calorias, boas maneiras ou moderação.

O sorvete é só um exemplo do que tem sido nosso cotidiano.
A vida anda cheia de meias porções, de prazeres meia-boca, de aventuras pela metade.
A gente sai pra jantar, mas come pouco.
Vai à festa de casamento, mas resiste aos bombons.
conquista a chamada liberdade sexual, mas tem que fingir que é difícil (a imensa maioria das mulheres continua com pavor de ser rotulada de ‘fácil’).

Adora tomar um banho demorado, mas se contém pra não desperdiçar os recursos do planeta.

Tem vontade de ficar em casa vendo um dvd, esparramada no sofá, mas se obriga a ir malhar.

E por aí vai.

Tantos deveres, tanta preocupação em ‘acertar’, tanto empenho em passar na vida sem pegar recuperação…
Aí a vida vai ficando sem tempero, politicamente correta e existencialmente sem-graça, enquanto a gente vai ficando melancolicamente sem tesão…

Às vezes dá vontade de fazer tudo “errado”.
Deixar de lado a régua, o compasso, a bússola, a balança e os 10 mandamentos.
Ser ridícula, inadequada, incoerente e não estar nem aí pro que dizem e o que pensam a nosso respeito.
Recusar prazeres incompletos e meias porções.

Nós, que não aspiramos à santidade e estamos aqui de passagem, podemos (devemos?) desejar várias bolas de sorvete, bombons de muitos sabores, vários beijos bem dados, a água batendo sem pressa no corpo, o coração saciado.

Um dia a gente cria juízo.
Um dia…
Não tem que ser agora.

Por isso, garçom, por favor, me traga: cinco bolas de sorvete de chocolate…
Depois a gente vê como é que faz pra consertar o estrago.

Ser dona de si.

Ser dona de si.
E pensa que não há nada melhor do que poder fazer exatamente tudo o
que quer, na hora em que quer
Tem dias que você acorda que sei lá. Não aconteceu nada que te aborrecesse, nenhum problema à vista, tudo bem em todos os sentidos -os normais- e você está péssima.

Para começar, não consegue levantar da cama, e nela ficaria o dia inteiro, a vida inteira, a troco de nada. A cabeça está ruim, o analista está viajando, os amigos estão fazendo coisas, não têm tempo nem competência nem paciência para ouvir você -e, no fundo, ouvir o quê, se nem você mesma sabe o que dizer?

Fica pensando: o que poderia acontecer agora para sair desse estado ridículo -porque a depressão sem razão é quase ridícula, mas a gente só sabe disso depois que ela passa-, com tanta gente sofrendo por razões sérias e você sem nenhuma. E o pior é que quando se está nesse estado nunca se pensa que ele vai passar. E pensar em viver assim a vida toda, realmente não dá.

É uma agonia, quem sabe entrando num chuveiro as coisas melhoram? E a força para levantar e tomar um banho? Já cansou de ouvir falar que sair e andar um pouco é tiro e queda, mas se vestir, botar um tênis e ver o dia bonito, o céu azul e as pessoas alegres, correndo, rindo, é tudo que não se quer. Se pelo menos estivesse chovendo, fazendo frio, mas não: está um dia maravilhoso, e assim não dá.

Botar um CD nem pensar, ligar a TV também não, é quase uma dor física no peito, é claro, que dói mais que uma pedra no rim, pois para essa você sabe que há remédio. O jeito é continuar no fundo das cobertas tentando não pensar em nada, e na verdade não pensando, e tão triste que não consegue lembrar um só momento de alegria e felicidade que já tenha tido, e achando que a vida não tem solução.

E será que tem? O dia vai passando, nada melhora, e você não faz rigorosamente nada para tentar sair dessa. Para não morrer de fraqueza, pega na geladeira uma gelatina, essa pelo menos escorrega pela garganta sem precisar nem mastigar. Mas a vontade de viver é sempre mais forte, e já à tarde, com a cabeça funcionando melhor, resolve que vai melhorar. Começa devagar: levanta da cama, enche a banheira com uma água bem quentinha e toma um banho sem pressa; depois se veste, põe um suéter bacana, se maquia -muito importante- vai para a sala e começa a olhar em volta.

Tem uma casa bonita, exatamente como queria, e importante: nenhum eletrodoméstico está com defeito, tudo está funcionando, o que é uma benção dos céus. E começa a bater uma certa fome, sinal de que as coisas estão melhorando. Mas fica quietinha, esperando; e umas duas horas depois decide -porque isso é uma questão de decisão- que chega, não vai ficar assim não.

Pega a bolsa e vai a um restaurante de que gosta, pede uma caipirinha da fruta mais alegre que existe, o caju, e depois uma carne sangrenta com farofa e batata frita, tudo que evita 360 dias por ano. E pensa que não há nada melhor do que poder fazer exatamente tudo o que quer, na hora em que quer, que tem o direito de às vezes cair em depressão e não ter que dar satisfações a ninguém, nem à amiga nem ao analista, e que isso é a coisa mais importante deste mundo. Porque ser livre para ser feliz, ou até infeliz, é um privilégio que todos devem ter.

Difícil Felicidade…

Existem momentos raros, é verdade, em que tudo está bem. Bem, não: ótimo. A casa finalmente ficou pronta, os gatos estão com saúde, os filhos bem e felizes, faltam só 15 dias para a viagem marcada há seis meses e a passagem parcelada já está paga, a saúde em forma total e, como se não bastasse, uma proposta de trabalho nova e sedutora e sem ter que deixar o atual trabalho. A vida está tão boa que chega a dar uma agonia. E isso é normal? Não, diria a maioria das pessoas. Sim, afirmam os mais habituados a conviver com as profundezas da alma.

É bem verdade que esses tempos são raros, e normalmente, até bobagens como a máquina de lavar roupa que está com defeito é um estresse. Mas quando eles acontecem são difíceis de suportar. A palavra é essa mesma: suportar.

É uma aflição, um medo de que nada dê certo, que você está sonhando, vai acordar e ver que não é nada daquilo, que a realidade não é assim, que existem problemas de todos os tipos o tempo todo e que nem o direito ao silêncio de sua casa você tem. Quando chega tem que ver os recados da secretária eletrônica, abrir o computador para ver os e-mails, e o mais normal é receber uma notícia que pode não ser péssima, mas será suficiente para perturbar sua santa paz. Que o ar-condicionado do quarto não está funcionando, por exemplo.

Mas tudo isso é normal, tão normal que não chega a causar nenhum abalo maior. Faz parte do dia-a-dia, faz parte de todos os dias, isso sem falar de uma dor de coluna, do brinco que sumiu, do lençol que manchou com água sanitária.

Mas tem aqueles dias maravilhosos em que tudo dá certo, e que o futuro, tudo indica, vai ser melhor ainda do que o presente. É curioso que esses dias nunca têm a ver com um homem maravilhoso que você conheceu na véspera. Esse tipo de encontro não costuma trazer paz, e sim angústia, ansiedade, insegurança, taquicardia, aflição. Não, esses grandes momentos acontecem apenas com nós mesmos, na nossa mais profunda -solidão? Não, solidão não é a palavra certa. É um sentimento de você com você mesmo, que não é compartilhado com nenhum ser humano e que prova que, apesar do que dizem, ninguém precisa de ninguém para ser feliz de verdade. Para ir a um cinema, comer uma pizza, trocar uma idéia sobre as infidelidades públicas dos políticos americanos, até aí se vai. Mas para ser feliz mesmo, para se ser profundamente feliz, não se precisa de ninguém, e o que pode parecer uma tragédia para alguns, é uma liberação para outros.

Não que só você seja feliz o tempo todo, mas existem aqueles momentos em que se é totalmente feliz, e é aí que as coisas se complicam. Como nada é fácil, você começa com a culpa, claro. Como ser feliz com tanta gente sofrendo? E aí começa o medo, o grande medo, aquele de perder a felicidade que está sentindo.

Para isso se apela para tudo: fazer uma aula de ginástica, tomar um tranqüilizante ou não fazer rigorosamente nada e ficar deitado na cama olhando para o teto, só sendo feliz e mais nada. Mas isso não dá porque os pensamentos não deixam, e a vontade é que aconteça alguma coisa que traga você de volta para o mundo imperfeito em que vive; a televisão quebrar já seria o suficiente. Ser infeliz é muito ruim, mas ser feliz é muito difícil.

Dez mandamentos bastam.

E as belas resoluções? que tal pensar que este vai ser o melhor ano de sua vida? não depende só de você, claro, mas uma bela ajuda você pode dar. Quer tentar?

Pra começar, conserve o humor a qualquer preço. Pode parecer difícil, mas custa, na hora do assalto, dizer uma palavrinha gentil? vai aliviar as tensões e pode até ajudar a salvar a sua própria vida. Assaltante também é gente, e se rouba, não é por prazer; se pudesse escolher, preferiria mil vezes estar num veleiro em Angra tomando uma vodca, rodeado de gatinhas e com o som bem alto; mas o problema é social, portanto, parte da culpa é sua. Pense nisso, na hora em que ele estiver arrancando seus brincos. Um momento que você pode transformar, de traumatizante, numa experiência humana e fraterna. Se os brincos não forem de orelha furada, claro.

Quando seu filho chegar com as notas da recuperação (não passou, é claro), afaste os maus pensamentos. Não adianta ficar lembrando dos dois míseros pontinhos em matemática que transformaram as férias marcadas com tanta antecedência, a viagem para o nordeste, os planos, enfim da família inteira. O mais importante – quem não sabe? – é não traumatizar a criança. Já basta sua frustração (dela, a criança). Faça um discurso sério mas cheio de afeto, mostrando que a derrota faz parte da vida, e que para seu futuro (dela, a criança), é bom saber que tropeços acontecem; foi até bom ter perdido o ano, uma lição de vida.

Seja mais carinhosa do que nunca, e não acredite nas aparências. Se o garoto passa as manhãs na praia e as tardes no shopping, no fundo, bem no fundo, é porque está sofrendo tanto com o que aconteceu, que tenta esquecer. E tem, claro, plena consciência do ano perdido, do dinheiro jogado fora etc. Não agrave seus sofrimentos (dela, a criança). E dobre a mesada, para que ela não se sinta nem um pouco culpada.

Seu marido, em cuja carteira você encontrou uma camisinha importada, disse que ganhou na festa do amigo oculto. Nem pestaneje, acredite. Acredite, mas passe a exigir que ele use sempre com você, e não faça clima. Desconfiar da fidelidade do marido? coisa dos anos 50. Seja moderna, alto-astral, pra cima, esse é o segredo da felicidade.

Nas vésperas do Ano-Novo sumiu uma garrafa de uísque e seu perfume francês? seja humana: ela merece. A culpa, aliás, é sua; se tivesse dado de presente, não teria acontecido. Afinal, um ano inteiro cozinhando, lavando, passando, abrindo e fechando suas malas, vendo as roupas novas, os sapatos, os cremes, francamente, tem que entender. A cobiça faz parte dos sentimentos humanos, e querer romper o ano tomando um drinque com gelo, igualzinho ao que ela tantas vezes preparou para você e levou na bandeja, é apenas natural. No lugar de fazer um escândalo, dê uma outra garrafa, da mesma marca, presente de carnaval. Se for mesmo o máximo, cuide da ressaca dela na Quarta-feira de Cinzas. Afinal, quantas suas ela já aturou? E uma mão lava a outra, quem não sabe?

E aquela amizade que desandou, lembra? está na hora de fazer um gesto, estender a mão. Se não tiver sucesso, melhor ainda. Você fica de bonita, passa por generosa, superior, e ela continua com a fama de intratável, insuportável, pode ser melhor?

Chega de sonhar. Se você conseguir parar de fumar e começar a ginástica, já é um bom começo. Quanto ao resto, siga os dez mandamentos. Mesmo não sabendo todos de cor, algo me diz que é por aí. Ou quase.

Felicidade…

De norte a sul, de leste a oeste, todo mundo quer ser feliz. Não é tarefa
das mais fáceis. A princípio, bastaria ter saúde,dinheiro e amor, o que já
é um pacote louvável, mas nossos desejos são ainda mais complexos.

Não basta que a gente esteja sem febre: queremos, além de saúde, ser
magérrimos, sarados, irresistíveis.

Dinheiro? Não basta termos para pagar o aluguel, a comida e o cinema:
queremos a piscina olímpica e uma temporada num spa cinco estrelas.

E quanto ao amor? Ah, o amor… não basta termos alguém com quem podemos
conversar,
dividir uma pizza e fazer sexo de vez em quando. Isso é pensar pequeno:
queremos AMOR, todinho maiúsculo. Queremos estar visceralmente
apaixonados,queremos ser surpreendidos por declarações e presentes inesperados,
queremos jantar à luz de velas de segunda a domingo, queremos sexo selvagem
e diário, queremos ser felizes assim e não de outro jeito.

É o que dá ver tanta televisão. Simplesmente esquecemos de tentar ser
felizes de uma forma mais realista.Ter um parceiro constante, pode ou não
ser sinônimo de felicidade. Você pode ser feliz solteiro, feliz com uns
romances ocasionais, feliz com um parceiro, feliz sem nenhum. Não existe
amor minúsculo, principalmente quando se trata de amor-próprio.

Dinheiro é uma benção. Quem tem precisa aproveitá-lo, gastá-lo,usufruí-lo.
Não perder tempo juntando, juntando, juntando. Apenas o suficiente para se
sentir seguro, mas não aprisionado.
E se a gente tem pouco, é com este pouco que vai tentar segurar a onda,
buscando coisas que saiam de graça, como um pouco de humor, um pouco de fé
e um pouco de criatividade.

Ser feliz de uma forma realista é fazer o possível e aceitar o improvável.
Fazer exercícios sem almejar passarelas, trabalhar sem almejar o
estrelato, amar sem almejar o eterno.

Olhe para o relógio: hora de acordar.
É importante pensar-se ao extremo, buscar lá dentro
o que nos mobiliza, instiga e conduz, mas sem exigir-se desumanamente.

A vida não é um jogo onde só quem testa seus limites é que leva o prêmio.
Não sejamos vítimas ingênuas desta tal competitividade. Se a meta está
alta demais, reduza-a. Se você não está de acordo com as regras, demita-se.
Invente seu próprio jogo. Faça o que for necessário para ser feliz. Mas
não se esqueça que a felicidade é um sentimento simples, você pode encontrá-la
e deixá-la ir embora por não perceber sua simplicidade. Ela transmite paz
e não sentimentos fortes, que nos atormenta e provoca inquietude no nosso
coração. Isso pode ser alegria, paixão, entusiasmo mas não felicidade.