Uma Orelha Que Fala – Fernando Rios.

Dos cinco sentidos, o livro escolheu a orelha.
Não porque ela ouve o livro falante,
porque ela é fala.
E sendo paradoxo em si mesma
trabalha silenciosamente
abre-se de vida jamais como mortalha
Orelha é metalinguagem.
Mais meta que linguagem.
E mesmo quando se diz de alguém
grotescamente que freqüenta orelhas de livro
sente-se ela, a orelha, elogiada.
Foi tocada por mãos, olhos e dedos
na sua fala amaciada
sempre um convite a uma leitura
que mesmo adiada,
ficará no tato, olhos, nariz e garganta do leitor.
Uma boa orelha que se degusta com os olhos
faz salivar a alma,
antecipa o sabor.

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