Cantiga para não morrer…

Quando você for se embora,
moça branca como a neve,
me leve.

Se acaso você não possa
me carregar pela mão,
menina branca de neve,
me leve no coração.

Se no coração não possa
por acaso me levar,
moça de sonho e de neve,
me leve no seu lembrar.

E se aí também não possa
por tanta coisa que leve
já viva em seu pensamento,
menina branca de neve,
me leve no esquecimento.

Ferreira Gullar

Universo!


“E assim, assustado e mudo,
bem menor que um ínfimo
grão de poeira, contudo,
sou capaz de apreender, no meu íntimo, 

essas incontáveis galáxias,
esses espaços sem fim,
essa treva e explosões de lava.
Como tudo isso cabe em mim?

O fato é que qualquer vasta nuvem
prenhe de sóis já mortos ou futuros
não possui consciência, esse obscuro
fenômeno surgido aqui na Via Láctea,

ou melhor, na Terra, e talvez
somente nela, não se sabe por que,
mas que permite ao cosmos perceber-se
a si mesmo, e ter olhos pra se ver.”

“Somos algo recente e raro
no universo, como rara
é também a própria luz
dos sóis deste sol que nos aclara.

Todo universo é treva.
Inalcançável vastidão escura
dentro da qual os sóis, as explosões
de gás e luz são exceções.”

“Vi pouco do universo: afora a asa
de luz e pó da via Láctea,
o que conheçosão as manhãs
que invadem minha casa”
Ferreira Gullar, em “Em Alguma Parte Alguma”

Desordem…

Meu assunto por enquanto é a desordem
o que se nega à fala

o que escapa
ao acurado apuro
do dizer
a borra
a sobra
a escória
a incúria
o não caber

ou talvez
– pior dizendo –
o que a linguagem
não disse
por não dizer

porque
por mais que diga
e porque disse
sempre restará
no dito o mudo
o por dizer
já que não é da linguagem
dizer tudo

ou é
se se
entender
que
o que foi dito
é o que é
e por isso
nada há mais por dizer

portanto
o meu assunto
é o não dito não
o sublime indizível
mas o fortuito
e possível
de ser dito
e não o é
por descuido
ou por intuito
já que
somente a própria coisa
se diz toda
(por ser muda)

é próprio da palavra
não dizer
ou melhor dizendo
só dizer

a palavra
é o não ser

isto porque
a coisa
(o ser)
repousa
fora de toda
fala
ou ordem sintática

e o dito (a
não coisa) é só
gramática

o jasmin, por exemplo,
é um sistema
como a aranha
(diferente do poema)
o perfume
é um tipo de desordem
a que o olfato
põe ordem
e sorve
mas o que ele diz
excede à ordem
do falar
por isso
que

desordenando
a escrita
talvez se diga
aquela perfunctória
ordem
inaudita

uma pera
também
funciona
como máquina
viva
enquanto quando
podre
entra ela (o sistema)
em desordem:
instala-se a anarquia
dos ácidos
e a polpa se desfaz
em tumulto
e diz
assim
bem mais do que dizia
ao extravasar
o dizer

dir-se-ia
então
que
para dizer
a desordem
da fruta
teria a fala
– como a pera –
que se desfazer?
que de certo
modo
apodrecer?

mas a fala
é só rumor
a ideia
não exala odor
(como a pera)
pela casa inteiraa fala,

                                       meu amor,não fede
                                          nem cheira

                 Ferreira Gullar, em “Em Alguma Parte Alguma”

Falar!

A poesia é, de fato, o fruto
de um silêncio que sou eu, sois vós,
por isso tenho que baixar a voz
porque, se falo alto, não me escuto.

A poesia é, na verdade, uma
fala ao revés da fala,
como um silêncio que o poeta exuma
do pó, a voz que jaz embaixo
do falar e no falar se cala.
Por isso o poeta tem que falar baixo
baixo quase sem fala em suma
mesmo que não se ouça coisa alguma.

Ferreira Gullar, em “Em Alguma Parte Alguma”

Off price.

Que a sorte me livre do mercado
e que me deixe
continuar fazendo (sem o saber)
fora de esquema
meu poema
inesperado

e que eu possa
cada vez mais desaprender
de pensar o pensado
e assim poder
reiventar o certo pelo errado

Ferreira Gullar, em “Em Alguma Parte Alguma”

Falas do mofo…

Do fundo das gavetas
de dentro de pastas
e envelopes
do fundo do silêncio encardido
em folhas de jornal
de um tempo ido
ali
regressa à luz
puído
o murmúrio inaudível
das vozes
no mofo impressas
mudas
ainda que plenas de retórica

É apenas
uma mínima parte
do incalculável arquivo morto
esta que reacende agora
à leitura do olhar
e em mim
ganha voz
por um momento

e penso em tantos falares
que abafados em pastas
e arquivos
esperam por um corpo
de homem
em que
de novo
se façam vivos

Ferreira Gullar, em “Em Alguma Parte Alguma”

A estrela.

 

 

 
Gatinho, meu amigo

fazes idéia do que seja uma estrela?

Dizem que todo este nosso imenso planeta
coberto de oceanos e montanhas
é menos que um grão de poeira
se comparado a uma delas

Estrela são explosões nucleares em cadeia
numa sucessão que dura bilhões de anos

O mesmo que a eternidade

Não obstante, Gatinho, confesso
que pouco importa
quanto dura uma estrela

Importa-me quanto duras tu,
querido amigo,
e esses teus olhos azul-safira
com que me fitas

Ferreira Gullar, em “Em Alguma Parte Alguma”

Inimigo oculto.

 

Dizem que em algum ponto do cosmos

(le silence éternel de ces espaces infinis m’effraie)

um pedaço negro de rocha
– do tamanho de uma cidade –
voa em nossa direção

perdido em meio a muitos milhares de asteróides
impelido pelas curvaturas do
espaço-tempo
extraviando entre órbitas
e campos magnéticos
voa em nossa direção

e quaisquer que sejam os desvios
e extravio de seu curso
deles resultará matematicamente
a inevitável colisão

não se sabe se quarta-feira próxima
ou no ano quatro bilhões e cinqüenta e dois
da era cristã

Ferreira Gullar, em “Em Alguma Parte Alguma”

Réquiem para Gullar.


 

“Debrucei-me à janela o parapeito tinha uma consistência de sono. “Tenho dito que essas begônias danificam tudo.” Meu corpo se dobrou: um maço de folhas olhos coisas por falar engasgadas a pele serena os cabelos no braço de meu pai o relógio dourado. A terra. Há duas semanas exatamente havia uma galinha ciscando perto daquela pimenteira. Alface tomate feijão de corda. É preciso voltar à naureza. Água no tanque água no corpo água solta na pia. A gramde viagem mar doce mar copo de flores porcos ao sol ortografia. Mar doce mar. Há certas lembranças que não nos oferecem nada, corpo na areia sol lagoa fria. Bichinhos delicados, o focinho da moça roçando a grama a treva do dia o calor. Hálito escuro o avesso das navalhas do fogo a grande ruína do crepúsculo. É preciso engraxar os sapatos. É preciso cortar os cabelos. É preciso telefonar oh é preciso telefonar. Cominho e farinha seca. Boca de fumo argolas africanas assaí bandeira lanterna. Vinte poucos anos ao lado do mar à direita à esquerda oh flâmula de sal guerreiros solo vivo. Automóvel e leite. Os domingos cruéis primeiro apeadouro segundo apeadouro aquele que acredita em mim mesmo depois de morto morrerá.  Tardes tardas a lente o estojo de ebonite sumaúma pião-roxo tuberculose. A boa e o luto dia sem limite. Cravo de defunto. Estearina. Moscas no nariz a língua coagulada na saliva de vidro e açúcar…”

Ferreia Gullar – Dentro da Noite Veloz.