Se tu viesses ver-me hoje à tardinha – Florbella Espanca.


Se tu viesses ver-me hoje à tardinha,
A essa hora dos mágicos cansaços,
Quando a noite de manso se avizinha,
E me prendesses toda nos teus braços…

Quando me lembra: esse sabor que tinha
A tua boca… o eco dos teus passos…
O teu riso de fonte… os teus abraços…
Os teus beijos… a tua mão na minha…

Se tu viesses quando, linda e louca,
Traça as linhas dulcíssimas dum beijo
E é de seda vermelha e canta e ri

E é como um cravo ao sol a minha boca…
Quando os olhos se me cerram de desejo…
E os meus braços se estendem para ti…

Volupia – Florbella Espanca.

No divino impudor da mocidade,
Nesse êxtase pagão que vence a sorte,
Num frêmito vibrante de ansiedade,
Dou-te o meu corpo prometido à morte!

A sombra entre a mentira e a verdade…
A nuvem que arrastou o vento norte…
— Meu corpo! Trago nele um vinho forte:
Meus beijos de volúpia e de maldade!

Trago dálias vermelhas no regaço…
São os dedos do sol quando te abraço,
Cravados no teu peito como lanças!

E do meu corpo os leves arabescos
Vão-te envolvendo em círculos dantescos
Felinamente, em voluptuosas danças…

Canção – Florbella Espanca.

De todas as coisas nenhuma
É bela como os olhos do meu amor.
De todas as coisas nenhuma
É livre como as mãos do meu amor.
De todas as coisas nenhuma
É forte como o corpo do meu amor.
Por isso das coisas o nome digo
Mas do meu amor canto,
A beleza do olhar com que me envolve
A liberdade nas mãos quando me toca
A força do seu corpo, meu abrigo.
De todas as coisas o nome digo,
Mas do meu amor…
O nome canto.

Poetisa Portuguesa que falou do AMOR como ninguem. . .

Um Dia – florbella Espanca.

Um dia!!!
Encontrar-nos-emos um dia,
Tu e eu,
À hora em que a saudade chega e se torna cinza.
E recordaremos com mãos gastas de tocar,
Como eram leves, quando eram mãos lisas de amor.
Como eram límpidos os nossos olhos antes de marcados,
Por tantos sulcos que rios de lágrimas abriram na pele.
E quando eram riso, quando eram verbo, quando eram beijo,
Como eram cheios os nossos lábios e perfeitos.
Os corpos curvados nesse dia,
Já saudade,
Lembrarão dias em que habitando-se eram fortes.
E eram ágeis e eram rectos os nossos corpos,
Nesses dias,
Nossos dias,
Fazendo amor.
Encontrar-nos-emos um dia.

Fanatismo – Florbella Espanca.


Minh’alma, de sonhar-te, anda perdida
Meus olhos andam cegos de te ver!
Não es sequer razão do meu viver,
Pois que tu es já toda a minha vida!

Não vejo nada assim enlouquecida…
Passo no mundo , meu Amor, a ler
No misterioso livro do teu ser
A mesma história tantas vezes lida!

“Tudo no mundo é frágil, tudo passa…”
Quando me dizem isto, toda a graça
Duma boca divina fala em mim!

E, olhos postos em ti, digo de rastros:
“Ah! Podem voar mundos, morrer astros,
Que tu es como Deus: Princípio e Fim!…”

Desejos Vãos – Florbella Espanca.


Eu queria ser o Mar de altivo porte
Que ri e canta, a vastidão imensa!
Eu queria ser a Pedra que não pensa,
A pedra do caminho, rude e forte!

Eu queria ser o sol, a luz intensa
O bem do que é humilde e não tem sorte!
Eu queria ser a árvore tosca e densa
Que ri do mundo vão é ate da morte!

Mas o mar também chora de tristeza…
As árvores também, como quem reza,
Abrem, aos céus, os braços, como um crente!

E o sol altivo e forte, ao fim de um dia,
Tem lágrimas de sangue na agonia!
E as pedras… essas… pisá-as toda a gente!…