Confusão.

Meu coração
é teu coração?
Quem me reflete pensamentos?
Quem me empresta
esta paixão
sem raízes?
Por que muda meu traje
de cores?
Tudo é encruzilhada!
Por que vês no céu
tanta estrela?
Irmão, és tu
ou sou eu?
E estas mãos tão frias
são daquele?
Vejo-me pelos ocasos,
e um formigueiro de gente
anda por meu coração.

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Canção Outonal.

Hoje sinto no coração
um vago tremor de estrelas
mas minha senda se perde
na névoa da alma.
A luz me quebra as asas
e a dor de minha tristeza
vai molhando as recordações
na fonte da idéia.

Todas as rosas são brancas,
tão brancas quanto minha pena,
e não são rosas brancas
porque nevou sobre elas.
Antes tiveram o íris.
Também sobre a alma neva.
A neve da alma tem
Copos de beijos e cenas
que se fundiram nas sombras
ou na luz de quem as pensa.

A neve cai das rodas
Mas a da alma fica
E a garra dos anos
Faz um sudário com elas.

Desfazer-se-á a neve
quando a morte nos levar?
Ou depois haverá outra neve
e outras rosas mais perfeitas?
Haverá paz entre nós
como Cristo nos ensina?
Ou nunca será possível
a solução do problema?

E se o amor nos engana?
Quem a vida nos alenta
se o crepúsculo nos funde
na verdadeira ciência
do Bem que quiçá não exista,
e do mal que palpita perto?

Se a esperança se apaga
e a Babel começa,
que tocha iluminará
os caminhos da Terra?

Se o azul é um sonho
que será da inocência?
Que será do coração
se o Amor não tem flechas?

Se a morte é morte,
que será dos poetas
e das coisas adormecidas
que já ninguém delas se recorda?
Oh! sol das esperanças!
Água clara! Lua Nova!
Corações dos meninos!
Almas rudes das pedras!
Hoje sinto no coração
um vago tremor de estrelas
e todas as coisas são
tão brancas quanto minha pena.

Outra Canção.

Desfez-se o sonho para todo o sempre!
Nesta tarde chuvosa
meu coração aprende
a tragédia outonal
que as árvores suportam.

E na doce tristeza
da paisagem que morre
minhas vozes partiram-se.

Desfez-se o sonho para todo o sempre!
Para sempre! Deus meu!,
A neve vai caindo
na campina deserta
de minha vida,
e teme
a ilusão, se vai longe,
que se gele ou se perca.

Como, me disse a água,
que se desfez o sonho para sempre!
É o sonho infinito?
A neblina o sustenta,
e a neblina é tão só
o cansaço da neve.

Meu ritmo vai contando
que se desfez o sonho para sempre.
E na tarde brumosa
meu coração aprende
a tragédia outonal
que as árvores suportam.

“Cata-Vento”

Vento do Sul,
moreno, ardente,
vens sobre minha carne,
trazendo-me semente
de brilhantes
olhares, encharcados
de flores de laranjeira.

Tornas vermelha a lua
e soluçantes
os álamos cativos, porém vens
demasiado tarde!
Já enrolei a noite de meu conto
ali na estante!

Sem nenhum vento,
presta-me atenção!
gira, coração;
gira, coração.

Vento do Norte,
urso branco do vento!
Vens sobre minha carne
tiritante de auroras
boreais,
com teu manto de espectros
capitães,
e rindo-te, aos gritos
do Dante.
Oh! polidor de estrelas!
Porém vens
demasiado tarde.
Meu armário está musgoso
e lhe pedi a chave.

Sem nenhum vento,
presta-me atenção!
gira, coração;
gira, coração.
Brisas, gnomos e ventos
de nenhuma parte.
Mosquitos da rosa
de pétalas pirâmides.
Alísios desmamados
entre as árvores rudes,
flautas entre a tormenta,
deixai-me!
Possui fortes cadeias
minha recordação,
e está cativa a ave
que desenha com trinos
a tarde.

As coisas que se vão não voltam nunca,
toda a gente bem sabe,
e em meio à clara multidão dos ventos
é inútil queixara-se.
Choupo, maestro da aura, não é certo?
É inútil queixar-se!
Sem nenhum vento,
presta-me atenção!
gira,coração;
gira, coração.

“Chuva”

A chuva tem um vago segredo de ternura,
algo duma resignada e amável sonolência,
uma música humilde com ela se desperta
que faz vibrar da paisagem a alma adormecida.

É beijo azul que recebe em sua face a Terra,
o mito primitivo que volta a se cumprir.
O cantacto já frio de céu e terra velhos
com uma mansidade de entardecer constante.

É alvorada do fruto. A que nos traz as flores
e nos unge do sagrado espírito dos mares.
A que vida derrama por cima das searas
e na alma tristeza daquilo que não se sabe.

A nostalgia terrível duma vida perdida,
o fatal sentimento de haver nascido tarde,
ou a agitada ilusão duma impossível manhã
com a inquietação quase da cor da carne.

No ritmo de seu cinzento o amor se desperta,
nosso céu íntimo tem um triunfo de sangue,
mas o nosso otimismo converte-se em tristeza
quando contempla sobre os cristais as gotas mortas.

E são as gotas: olhos de infinito que miram
o infinito branco que lhes serviu de madre.

Cada gota de chuva treme no cristal turvo
e nele adamantinas chagas divinas deixam.
São poetas da água que viram e que meditam
aquilo que dos rios a multidão não sabe.

Oh! chuva silenciosa, sem ventos nem tormentas,
mansa e calma chuva de sineta e luz suave,
pacífica e boa chuva que és a verdadeira,
a que amorosa e triste por sobre as coisas cais!

Oh! chuva franciscana que a tuas gotas levas
almas de fontes claras e humildes mananciais!
Quando por sobre os campos desces vagarosamente
as rosas de meu peito com teus sonidos abres.

O canto primitivo que dizes ao silêncio
e a estória sonora que contas à ramagem
comenta-os a chorar meu coração deserto
em um negro e profundo pentagrama sem clave.

Minha alma tem tristeza dessa chuva serena,
tristeza resignada de coisa irrealizável,
tenho no horizonte uma luzerna esplendente
e o coração me impede que corra a contemplá-la.

Oh! chuva silenciosa que as árvores amam
e és sobre a planície doçura emocionante:
à alma dás as mesmas névoas e ressonâncias
que na alma adormecida colocas da paisagem!

A casada infiel – Frederico García Lorca.

Eu que a levei ao rio,
pensando que era donzela,
porém tinha marido.

Foi na noite de Santiago
e quase por compromisso.
Apagaram-se os lampiões
e acenderam-se os grilos.
Nas últimas esquinas
toquei seus peitos dormidos,
e se abriram prontamente
como ramos de jacintos.
A goma de sua anágua
soava em meu ouvido
como uma peça de seda
rasgada por dez punhais.
Sem luz de prata em suas copas
as árvores estão crescidas,
e um horizonte de cães
ladra mui longe do rio.

Passadas as sarçamoras,
os juncos e os espinhos,
debaixo de seus cabelos
fiz uma cova sobre o limo.
Eu tirei a gravata.
Ela tirou o vestido.
Eu, o cinturão com revólver.
Ela, seus quatro corpetes.
Nem nardos nem caracóis
têm uma cútis tão fina,
nem os cristais com lua
reluzem com esse brilho.
Suas coxas me escapavam
como peixes surpreendidos,
a metade cheias de lume,
a metade cheias de frio.
Aquela noite corri
o melhor dos caminhos,
montado em potra de nácar
sem bridas e sem estribos.
Não quero dizer, por homem,
as coisas que ela me disse.
A luz do entendimento
me faz ser mui comedido.
Suja de beijos e areia,
eu a levei do rio.
Com o ar se batiam
as espadas dos lírios.

Portei-me como quem sou.
Como um cigano legítimo.
Dei-lhe um estojo de costura,
grande, de liso palhiço,
e não quis enamorar-me
porque tendo marido
me disse que era donzela
quando a levava ao rio.