O Cenário da Vida!

Não importa, ó homem, qual o papel que te coube no drama da vida.
Rei ou vassalo, milionário ou mendigo, filósofo ou analfabeto – não importa.
Se o mendigo no palco desempenhar bem o seu papel de mendigo, receberá mais aplausos do que o rei que não soube fazer o papel de rei.
Mais vale desempenhar com inteligência o papel de tolo, do que tolamente fazer o papel de inteligente.
Quando houveres desempenhado do melhor modo possível o teu papel, brilhante ou humilde, no cenário da vida, não esperes pelos aplausos da platéia.
Desaparece em silêncio por trás dos bastidores do esquecimento, da ingratidão ou da morte …
Por todo o bem que tu fizeres espera todo o mal que não farias …
Se a platéia te aplaudir, agradece a boa intenção – mas não contes com isso!
Se a platéia te vaiar, tolera a injúria – mas não te entristeças por isso!
Não valem uma lágrima nem um sorriso todos os elogios ou vitupérios do mundo.
Não és santo porque os homens o dizem – nem és celerado porque os homens o afirmam …
Seja-te suficiente galardão, a consciência do dever cumprido do melhor modo possível .
Não necessita de apoteose verbal quem dentro de si traz a apologia real da justiça e da verdade.
Pode sofrer sereno e calmo todas as vaias do mundo, quem não buscou os aplausos dos homens .
Mais feliz se sente na derrota do que na vitória, quem não é derrotado por vitória alguma .
Mais luminosa é para o herói a escuridão dos bastidores do que para o covarde o fulgor da ribalta.
Não vale a vida pela extensão que ocupa no tempo ou no espaço – VALE PELA INTENSIDADE COM QUE É VIVIDA .

Huberto Rohden.

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Os Três Mundos Dentro de Mim.

Indefeso jornadear é a minha vida.
Cruzei solitários Saaras,
Galguei gigantescos Himalaias,
Perdi-me em vastas selvas,
Desci a tenebrosos abismos
Até, finalmente, atingir um oásis de paz,
De uma paz profunda, nascida da Verdade…
Entrei no terceiro e último
Dos meus mundos de dentro…
Arribei à mais longínqua galáxia
Dos universos de Deus…
No princípio, quando minha alma era criança,
Necessitava eu duma autoridade externa,
De um homem super-homem,
Que me guiasse pela mão,
Rumo a Deus.
E eu vivia tranqüilo nesse mecanismo
De cega obediência
A um homem que fazia as vezes de Deus.
Mais tarde, muito mais tarde,
Quando adolescente,
Em face das fraquezas dos homens de fora,
Desiludido, decepcionado,
Agarrei-me a outra tábua salvadora,
Em pleno naufrágio.
Analisei fatos históricos,
Estudei livros sagrados,
Relíquias de primitivas eras
E minha fé em Deus se robusteceu
E se purificou.
Encontrei o meu Deus
No mundo dos homens
E sentia-me muito seguro
De mim mesmo.
Mas… o mundo é tão paradoxal,
Tão vácuo de Deus
E tão pleno de Satã,
Pleno de luzes…
Insatisfeito com o mundo de Deus,
Fui em busca de Deus
Dentro de mim mesmo…
Em longas horas de silente introspecção,
Em noites solenes de êxtase anônimo,
Em abismos de dinâmica passividade,
Em epopéias de luminosa escuridão,
Em céus infernais de dulcíssimas agonias,
Em silenciosos brados de amorosa tortura
Encontrei-me com o grande Anônimo
De mil nomes…
Celebrei as minhas núpcias místicas
Com o Infinito EU SOU…
E eclipsaram-se todos os mundos de Deus,
Aos fulgores do Deus dos mundos…
E eu era feliz, na certeza do meu destino,
Do porquê da minha vida terrestre…
Hoje, a luz de dentro
Me reconciliou com o mundo de fora
Hoje a experiência do Deus do mundo
Me tornou tolerável o mundo de Deus.

(Texto extraído do livro “Escalando o Himalaia” – Huberto Rohden.)

Queimar os Navios…

“Queima os teus navios, meu amigo!”
Assim te escrevi…
E tu me perguntas o que quer isso dizer…
Coisa muito grave, gravíssima — quer isso dizer, meu amigo…
Quando Fernando Cortez, há mais de quatro séculos, aportou no país dos astecas, disse ele aos soldados:
“Reembarque para Cuba todo homem medroso!…”
Silêncio profundo acolheu esta ordem — e o pugilo de temerários heróis foi à conquista do México…
Para cortar cerce toda esperança de regresso inglório, lançou Cortez fogo aos navios — reduzindo-os a cinzas…
E tu, meu amigo — já queimaste teus navios?…
Cortaste rente toda a idéia de voltar atrás — às “panelas do Egito”?…
Das árduas alturas do espírito — para a suave planície da matéria?”
Olha em derredor: quase todos preferem a farta escravidão — à austera liberdade…
E muitos dos que vão à conquista do paraíso de Deus — deixam intatos seus barcos…
Sempre dispostos a refugiar-se neles — no comodismo da vida, nas queridas vaidades de ontem…
Aqui, o deserto de Deus — lá embaixo, festins do Egito…
Aqui em cima, remar contra a corrente — lá embaixo, deixar-se ir ao sabor das tépidas vagas…
Somos como nadadores principiantes que se lançam às águas mas não largam os arbustos da praia.
Quanto mais nos convida a jubilosa liberdade das ondas bravias de Deus — tanto mais nos aferramos às coisas queridas da terra…
Somos de Deus, certamente — mas somos também do mundo…
Não ousamos sem reserva lançar-nos a seus mares ignotos e perder de vista os verdes litorais da nossa vida…
Empunhamos o arado de Deus — mas sempre a olhar para trás…
Queremos, sim, anunciar o reino de Deus — mas primeiro matar saudades em casa e enterrar nossos defuntos…
Ai! como é difícil ser integralmente o que se é!…
Bandeirante de vastos horizontes…
Pioneiro de mundos ignotos…
Herói sem reserva!…
Forramos de anêmicos quisera, quisera nossa vida — e não ousamos bradar um intrépido eu quero!…
Tu, meu amigo, que és jovem e espírito ideal — reduze a cinzas as naus em que vieste!…
Morrer para o teu panteão de ídolos…
Morrer por um grande ideal…
É viver eternamente…

(De “De Alma para Alma”, de Huberto Rohden)

Adeus, alma querida!!!

“Se você ama alguma coisa, deixe-a livre. Se voltar, é sua. Se não voltar,nunca foi.”
Se, no caminho do teu saara, encontrares uma alma que te queira bem,aceita em silêncio o suave ardor da sua benquerença – mas não lhe peças coisa alguma, não exijas, não reclames nada do ente querido.
Recebe com amor o que com amor te é dado – e continua a servir com perfeita humildade e despretensão.
Quanto mais querida te for uma alma, tanto menos a explores, tanto mais lhe serve, sem nada esperar em retribuição.
No dia e na hora em que uma alma impuser a outra alma um dever, uma obrigação, começa a agonia do amor, da amizade. Só num clima de absoluta espontaneidade pode viver esta plantinha delicada.
E quando então essa alma que te foi querida se afastar de ti – não a retenhas. Deixa que se vá em plena liberdade. Faze acompanhá-la dos anjos tutelares das tuas preces e saudades, para que em níveas asas a envolvam e de todo mal a defendam mas não lhe peças que fique contigo.
Mais amiga te será ela, em espontânea liberdade, longe de ti – do que em forçada escravidão, perto de ti. Deixa que ela siga os seus caminhos – ainda que esses caminhos a conduzam aos confins do Universo, à mais extrema distância do teu habitáculo corpóreo.
Se entre essa alma e a tua existir afinidade espiritual, não há distância, não há em todo Universo espaço bastante grande que de ti possa alhearessa alma. Ainda que ela erguesse vôo e fixasse o seu tabernáculo para além das últimas praias do Sírio, para além das derradeiras fosforescência da Via Láctea, para além das mais longínquas nebulosas de mundos em formação contigo estaria essa alma querida…
Mas, se não vigorar afinidade espiritual entre ti e ela, poderá essa alma viver contigo sob o mesmo teto e contigo sentar-se à mesma mesa não será tua, nem haverá entre vós verdadeira união e felicidade.
Para o espírito a proximidade espiritual é tudo – a distância material não é nada.
Compreende, ó homem/mulher e vai para onde quiseres! Ama e estarás sempre perto do ente amado…
Em todo o Universo… Dentro de ti mesmo…

Huberto Rhoden.

 

 

 

O Grande Homem.

Quem faz jus ao título de “grande homem”?
Não sei…
O homem inteligente?
Não basta ter inteligência para ser grande…
O homem poderoso?
Há poderosos mesquinhos…
O homem religioso?
Não basta qualquer forma de religião…
Podem todos esses homens possuir muita inteligência,
muito poder, e muita religiosidade,
e nem por isso são grandes homens.
Pode ser que lhes falte certo vigor e largueza,
certa profundidade e plenitude,
indispensáveis à verdadeira grandeza.
Podem os inteligentes, os poderosos,
os virtuosos não ter a verdadeira liberdade de espírito…
Pode ser que as suas boas qualidades
não tenham essa vasta e leve espontaneidade
que caracteriza todas as coisas grandes.
Pode ser que a sua perfeição venha mesclada
de um quê de acanhado e tímido,
com algo de teatral e violento.
O grande homem é silenciosamente bom…
É genial – mas não exibe gênio…
É poderoso – mas não ostenta poder…
Socorre a todos – sem precipitação…
É puro – mas não vocifera contra os impuros…
Adora o que é sagrado – mas sem fanatismo…
Carrega fardos pesados – com leveza e sem gemido…
Domina – mas dem insolência…
É humilde – mas sem servilismo…
Fala a grandes distâncias – sem gritar…
Ama – sem se oferecer…
Faz bem a todos – antes que se perceba…
“Não quebra a cana fendida, nem apaga a mecha fumegante
– nem se ouve o seu clamor nas ruas…”
Rasga caminhos novos – sem esmagar ninguém…
Abre largos espaços – sem arrombar portas…
Entra no coração humano – sem saber como…
Tudo isso faz o grande homem, porque é como o Sol
esse astro assaz poderoso para sustentar um sistema planetário,
e assaz delicado para beijar uma pétala de flor…
Assim é, e assim age o homem verdadeiramente bom – porque é instrumento nas mãos de Deus…
Desse Deus de infinita potência – e de supremo amor…
Desse Deus cuja força governa a imensidade do cosmos
e cuja preciência sabe das fraquezas do homem…
O grande homem é, mais do que ninguém, imagem e semelhança de Deus…

Huberto Rohden.