Minimamente Feliz…

Leila Ferreira é uma jornalista mineira com mestrado
em Letras e doutora em Comunicação, em Londres.

A felicidade é a soma das pequenas felicidades. Li essa frase num outdoor em Paris e soube, naquele momento, que meu conceito de felicidade tinha acabado de mudar. Eu já suspeitava que a felicidade com letras maiúsculas não existia, mas dava a ela o benefício da dúvida.

Afinal, desde que nos entendemos por gente aprendemos a sonhar com essa felicidade no superlativo. Mas ali, vendo aquele outdoor estrategicamente colocado no meio do meu caminho (que de certa forma coincidia com o meio da minha trajetória de vida), tive certeza de que a felicidade, ao contrário do que nos ensinaram os contos de fadas e os filmes de Hollywood, não é um estado mágico e duradouro.

Na vida real, o que existe é uma felicidade homeopática, distribuída em conta-gotas. Um pôr-do-sol aqui, um beijo ali, uma xícara de café recém-coado, um livro que a gente não consegue fechar, um homem que nos faz sonhar, uma amiga que nos faz rir. São situações e momentos que vamos empilhando com o cuidado e a delicadeza que merecem alegrias de pequeno e médio porte e até grandes (ainda que fugazes) alegrias.

‘Eu contabilizo tudo de bom que me aparece’, sou adepta da felicidade homeopática. ‘Se o zíper daquele vestido que eu adoro volta a fechar (ufa!) ou se pego um congestionamento muito menor do que eu esperava, tenho consciência de que são momentos de felicidade e vivo cada segundo.

Alguns crescem esperando a felicidade com maiúsculas e na primeira pessoa do plural: ‘Eu me imaginava sempre com um homem lindo do lado, dizendo que me amava e me levando pra lugares mágicos Agora, se descobre que dá pra ser feliz no singular: ‘Quando estou na estrada dirigindo e ouvindo as músicas que eu amo, é um momento de pura felicidade. Olho a paisagem, canto, sinto um bem-estar indescritível’.

Uma empresária que conheci recentemente me contou que estava falando e rindo sozinha quando o marido chegou em casa. Assustado, ele perguntou com quem ela estava conversando: ‘Comigo mesma’, respondeu. ‘Adoro conversar com pessoas inteligentes’.

Criada para viver grandes momentos, grandes amores e aquela felicidade dos filmes, a empresária trocou os roteiros fantasiosos por prazeres mais simples e aprendeu duas lições básicas: que podemos viver momentos ótimos mesmo não estando acompanhadas e que não tem sentido esperar até que um fato mágico nos faça felizes.

Esperar para ser feliz, aliás, é um esporte que abandonei há tempos. E faz parte da minha ‘dieta de felicidade’ o uso moderadíssimo da palavra ‘quando’.

Aquela história de ‘quando eu ganhar na Mega Sena’, ‘quando eu me casar’, ‘quando tiver filhos’, ‘quando meus filhos crescerem’, ‘quando eu tiver um emprego fabuloso’ ou ‘quando encontrar um homem que me mereça’, tudo isso serve apenas para nos distrair e nos fazer esquecer da felicidade de hoje. Esperar o príncipe encantado, por exemplo, tem coisa mais sem sentido? Mesmo porque quase sempre os súditos são mais interessantes do que os príncipes; ou você acha que a Camilla Parker-Bowles está mais bem servida do que a Victoria Beckham?

Como tantos já disseram tantas vezes, aproveitem o momento, amigos. E quem for ruim de contas recorra à calculadora para ir somando as pequenas felicidades.

Podem até dizer que nos falta ambição, que essa soma de pequenas alegrias é uma operação matemática muito modesta para os nossos tempos. Que digam.

Melhor ser minimamente feliz várias vezes por dia do que viver eternamente em compasso de espera.

A terapia e os livros.

A cidade era Paris e ali estava nossa equipe – cinegrafista, produtora e eu – gravando mais um programa de TV. Fazia um frio intenso e a chuva mansa, aquela garoa insistente que no interior de Minas costumamos chamar de “chuva de molhar bobo”, nos castigava havia umas três horas. A certa altura, eu disse a Marli (além de produtora, amiga de longa data): “Que dia perfeito pra ficar na cama com um policial e um cobertor bem quentinho!”. O cinegrafista, que me conhecia pouco e estava viajando conosco pela primeira vez, olhou assustadíssimo. Mas Marli, sempre atenta, detectou o mal-entendido e prontamente esclareceu: “A Leila quis dizer um livro policial. Ela é viciada em policiais, ou melhor, em livros policiais”.
Assim tem sido, desde sempre. Sou capaz de trocar uma tarde nas ruas de Paris por algumas horas no quarto do hotel, lendo um bom policial. Por um bom policial, deixo de contemplar a paisagem nas janelas dos ônibus, trens e aviões. Volto mais cedo de festas e jantares (quando sou obrigada a ir). Abrevio conversas com amigos, interrompo conversas telefônicas, deixo que os e-mails acumulem, jogo fora o jornal que não cheguei a ler. Pouquíssimas coisas na vida me proporcionam o prazer que um policial, ou um livro policial, costuma me proporcionar.
Por isso mesmo fiquei extremamente feliz, outro dia, quando minha amiga mais querida, que nunca teve o hábito de ler, me falou sobre a recomendação que tinha acabado de ouvir de sua psiquiatra. Ela me telefonou de uma grande livraria de São Paulo e disse que estava ali por recomendação médica. “Como assim?”, perguntei. Minha amiga, que está se tratando de uma depressão e já começa a melhorar, explicou que sua terapeuta sugeriu, como parte do tratamento, que ela tente desenvolver o hábito da leitura e, para começar, sua indicação tinha sido o gênero policial. O consultório da psiquiatra fica perto da livraria e ela recomendou que sua paciente passasse ali logo depois da consulta e visitasse a seção de livros policiais. A terapeuta não entrou em detalhes sobre a escolha do gênero – disse apenas que era um tipo de leitura envolvente. Minha amiga seguiu a prescrição, já está em seu segundo livro e, o que é melhor, tem lido com imenso prazer.
Sempre acreditei que, além de companhia, livros são remédio. Curam dores desnecessárias, provocam outras que precisamos ter, acalmam, distraem e, ao mesmo tempo, despertam inquietações e angústias que são essenciais para o (bem) viver. Um bom livro nos torna pessoas melhores, levanta indagações sem as quais o espírito perde o tônus, estimula o cérebro, ensina a pensar e educa o sentir. Até os policiais?, podem perguntar alguns. Sim, até eles. Não há espaço aqui para “defender” os livros policiais daqueles que acham que eles precisam de defesa. Mas garanto que há poucas coisas tão prazerosas e estimulantes quanto acompanhar uma trama inteligente e bem construída, seguir uma investigação que se desdobra em muitas e, enquanto se desdobra, constrói retratos precisos do ser humano com o que ele tem de melhor e, na maior parte das vezes, de não tão bom assim.
Se eu morasse em São Paulo, acho que me trataria com a psiquiatra da minha amiga só para ter o privilégio de conhecer uma terapeuta que ousa receitar livros policiais como acompanhamento para a fluoxetina. E, para quem nunca leu um Harlan Coben, um Nicci French (que, na verdade, é o pseudônimo de um casal), um Dennis Lehanne ou mesmo uma Agatha Christie, garanto: além de remédio, passar uma tarde de chuva na cama com um bom policial é programa cinco estrelas. Com um detalhe: não tem que ser em Paris.

Leila Ferreira | jornalista
* autora do livro A arte de ser leve, Editora Globo

Até no céu?

A cena é clássica. Você chega para um encontro em um café ou restaurante com aquela amiga querida (ou aquele amigo) que não via há muito tempo, vocês fazem o pedido logo, para poder conversar sem serem interrompidos pelo garçom e, assim que a conversa tão esperada começa, o celular toca – o seu ou o da outra pessoa. Sim, porque os dois aparelhos, estrategicamente posicionados ao lado dos talheres, estão ligados. Aí, como se não soubessem que aparelhos ligados eventualmente tocam, vocês primeiro trocam um olhar desconcertado, de quem foi apanhado de surpresa. Depois, o dono do aparelho encara o celular com ar de reprovação, como se a culpa fosse dele, o aparelho, e deixa que toque mais umas duas vezes, como se estivesse tomando a decisão de atender ou não. Puro jogo de cena. A outra pessoa sabe o que deve fazer nessa hora e faz: com um gesto qualquer, dá o sinal verde para que o amigo atenda e passa a contemplar o teto até que a conversa telefônica acabe, ou melhor, a primeira conversa telefônica, porque outras virão, certamente. Ninguém coloca dois telefones celulares ao alcance dos ouvidos e das mãos impunemente. Em algum momento, ou em vários, eles tocarão. E a conversa há tanto tempo esperada, bom… espera mais um pouco. Fazer o quê?

O fato é que, desde que o celular passou a nos acompanhar onde quer que estejamos, inclusive em velórios (qual foi o último velório em que você esteve sem que nenhum celular tocasse?), conversar passou a ser, mais do que nunca, uma arte. Conversa-se, hoje, alinhavando pensamentos entre uma e outra interrupção. Fala-se, e ouve-se, em (nada suaves) prestações. Antes, conversas criavam climas – e se alimentavam deles. Hoje, sobrevivem a intempéries. O fio da meada se perde em questão de segundos e novos novelos vão surgindo, aleatórios e desencontrados, criando diálogos que na verdade são monólogos alternados. As frases não fluem. O raciocínio não se completa. E o prazer da conversa, claro, se perde.

Outro dia, ouvi uma mãe contando que sua filha de quatro anos tinha perguntado a ela se no céu existem celulares. “Acho que sim”, foi sua resposta, “mas só quando a gente chegar lá é que vai ter certeza”. Torci, em silêncio, para que a previsão da jovem mãe não se confirme. Ou que, pelo menos, lá no céu a utilização dos celulares seja mais comedida. Poder conversar com os amigos como nos velhos tempos, sem ter que dividir as histórias em capítulos e sendo capaz de saborear os sentimentos que acompanham as boas conversas, é uma alegria que, na terra, anda difícil. Quem sabe na esfera celeste?…

Leila Ferreira | Jornalista

Posso Errar???

” Há pouco tempo fui obrigada a lavar os cabelos com o xampu ‘errado’. Foi num hotel, onde cheguei pouco antes de fazer uma palestra e, depois de ver que tinha deixado meu xampu em casa, descobri que não havia farmácia nem shopping num raio de 10 quilômetros. A unica opção era usar um dois-em-um (xampu com efeito condicionador) do kit do hotel. Opção? Maneira de dizer. Meus cabelos, superoleosos, grudam só de ouvir a palavra condicionador. Mas fui em frente. Apliquei o produto cautelosamente, enxaguei, fiz a escova de praxe e …surpresa! Os cabelos ficaram soltos e brilhantes- tudo aquilo que meus nove vidros de xampu “certo” que deixei em casa costumam prometer para nem sempre cumprir.Foi aí que me dei conta do quanto a gente se esforça para fazer a coisa certa, comprar o produto certo,usar a roupa certa, dizer a coisa certa- e apergunta que não quer calar é: certa pra quem? Ou: certa porquê?
O homem certo,por exemplo: existe ficção maior do que essa????Minha amiga se casou com um exemplo da espécie depois de namorá-lo sete anos. Levou um mês para descobrir que estava com o marido errado. Ele foi “certo” até colocar a aliança. O que faz surgir outra pergunta:certo até quando? Porque o certo de hoje pode se transformar no equívoco monumental de amanhã. Ou o contrário: existem homens que chegam com aquele jeito de nada a ver, vão ficando e, quando vocÊ se assusta, está casada- e feliz-com um deles. (Eu tenho um assim gente, que é uma pessoa linda apesar dos defeitos, como todos tem!)
Eas roupas? Quantos sábados vc já passou num shopping procurando o vestido certo e os sapatos certos para aquele casamento chiquérrimo! e na hora de sair para a festa, você olha no espelho e tem a sensação de que está tudo errado?As vendedoras juraram que era a escolha perfeita, mas talvez você se sentisse melhor com uma dose menor de perfeição. Eu mesma já fui para várias festas me sentindo fantasiada. Estava com a roupa “certa”, mas o que eu queria mesmo era ter ficado mais parecida comigo mesma, nem que fosse para “errar”.
Outro dia fui dar uma bronca numa amiga que insiste em fumar, apesar dos problemas de saúde, e ela me respondeu:” Eu sei que é errado,mas a gente tem que fazer alguma coisa errada na vida, senão fica tudo muito sem graça.O que eu queria mesmo era trair meu marido, mas isso eu naõ tenho coragem.( como muitas que conheço!!!) Então eu fumo”, (é isso mesmo genteeeeeeeeeeeem!!). Sem entrar no mérito da questão- da traição ou do cigarro-, concordo que viver é escorregar ou sair do tom. O mundo está cheio de regras,que vão desde o nosso guarda-roupa, passando por cosméticos e dietas, até que vamos dizer na entrevista de emprego, o vinho que devemos pedir no restaurante, o desempenho sexual que nos torna parceiros interessantes, o restaurante que está na moda, o celular que dá status, a idade que devemos aparentar( aqui em casa por exemplo, sempre me disseram que pareço a mais nova, bom né? Pois é, e sou a mais velha…aiaiai!!!). Obedecer, ou acertar, sempre é fazer um pacto com o óbvio, renunciar ao inesperado.
O filósofo Mario sergio Cortella conta que muitas pessoas se surpreendem quando constatam que ele não sabe dirigir e tem sempre alguém que pergunta: “Como assim?!Você não dirige?!”.Com toda a calma, ele responde:”Não, eu não dirijo. Também não boto ovo, não fabrico rádios- tem um punhado de coisas que eu não faço!”. Não temos que fazer tudo que esperam que a gente faça nem acertar sempre no que fazemos. Como diz Sofia, agente de viagens que adora questionar regras:” Não sou obrigada a gostar de comida japonesa, nem a ter manequim 38 e, muito menos, a achar normal uma vida sem carboidratos”. O certo ou o “certo” pode ate ser bom.Mas às vezes merecemos aposentar régua e compasso.”

Sem dramatizar a vida.

“Não podemos deixar que certas situações ganhem dimensões que não merecem”, alegou a portuguesa Helena Marujo em nossa conversa. “Temos que deixar de dramatizar a vida.” Nem um tango argentino, nem uma novela mexicana (ou quem sabe nem um fado português?). Parar de dramatizar a vida é fazer um pacto com a leveza, o que significa, além de administrar o otimismo e o pessimismo a nosso favor, aprender a rir, ou se dar mais chances de rir.

Um estudo feito a partir de amostras de sangue de um grupo de pessoas que assistiram a uma comédia com duração de uma hora (as amostras foram colhidas antes, durante e depois da exibição do vídeo) provou que, à medida que os participantes viam o filme, a taxa dos hormônios do estresse no organismo ficava mais baixa. Outro estudo analisou dois grupos de pacientes tratados durante um ano depois de ter um ataque cardíaco. No final do ano, o grupo que, como parte do tratamento, assistia diariamente a um vídeo cômico por dez minutos registrou taxas inferiores dos hormônios do estresse, além de pressão arterial mais baixa e menos arritmia cardíaca.

“É por isso que faço tudo para rir quando posso e até quando não devo”, diz minha amiga Juliana, que tem um emprego dos mais desgastantes, mas tenta criar anticorpos contra o estresse lendo livros engraçados, vendo filmes que descontraem e saindo com amigos dispostos a rir. “Fujo de gente sem senso de humor”, confessa. Juliana conta que escolheu a Colômbia para passar suas próximas férias por um único motivo: o povo colombiano, segundo leu, é bem-humorado. Além de sombra e água fresca, quer alegria.

Minha amiga provavelmente deve parte dessa capacidade de não dramatizar a vida aos genes. Já se sabe que 50% de nosso potencial de felicidade é determinado pela genética (dado divulgado, entre outros, pela pesquisadora e professora da Universidade da Califórnia, Sonja Lyubomirsky). Mas, genética à parte, sobra um considerável espaço de manobra para escolhermos como vamos agir e reagir no dia a dia. Segundo a pesquisadora, apenas 10% do nível de felicidade é fruto das circunstâncias (se somos ricos ou pobres, solteiros ou casados etc.). Ou seja, somando os 10% com os 50% da genética, sobram 40% para o papel de nossa postura nessa história – aquilo que escolhemos fazer e pensar. Porque pensar é um processo sobre o qual se pode ter controle.
“Nossa capacidade de pensar coisas boas é que vai estruturar o cérebro de tal forma que vamos sentir coisas boas”, explica a neurocientista Sílvia Cardoso. “Muitas coisas que pensamos sobre nossos relacionamentos, nosso trabalho e nossas amizades não têm tanta importância, mas deixamos que nos chateiem e até destruam relacionamentos. Temos que aprender a educar nossos pensamentos. Tudo começa neles e na interpretação que damos às coisas. Se você tem pensamentos negativos, terá emoções e sentimentos inadequados, e tudo dará errado. Mas, ao reeducar esses pensamentos, é possível transformar o cérebro e, transformando o cérebro, mudar a vida”, diz. O humor e o bom humor são fundamentais nessa reeducação, porque relativizam as coisas e dão a elas uma perspectiva diferente: “Ser bem-humorado significa perceber que a maior parte das situações que vivemos não é nem muito importante, nem muito séria, nem muito grave”, conclui a cientista.

Terêncio foi um engenheiro que construiu meticulosamente a própria felicidade. De seu jeito, claro. Teve uma infinidade de amigos, casou-se algumas vezes, e, segundo um amigo próximo, planejava somente a metade do dia. Quando se levantava, pensava no que faria de manhã. Depois do almoço, planejava a tarde e a noite. E não via nenhum problema em refazer ou desobedecer aos próprios planos. Leve, divertido, um autêntico bon vivant, ele morreu recentemente. Quem chega ao cemitério para visitar seu túmulo encontra o epitáfio encomendado por ele próprio, poucos dias antes de morrer. A placa diz apenas: “Só me faltava essa!”. Bom humor até o final – ou seria o começo? Mas essa é outra história.

Texto reproduzido do livro A arte de ser leve.

Vocabulário da Mulher.

Se eu tivesse que escolher uma palavra,
apenas uma para ser item obrigatório no vocabulário da mulher de hoje, essa palavra seria um verbo de quatro sílabas:_descomplicar.

Depois de infinitas (e imensas) conquistas,
acho que está passando da hora de aprendermos
a viver com mais leveza:
exigir menos dos outros e de nós próprias,
cobrar menos, reclamar menos, carregar menos culpa,
olhar menos para o espelho.

Descomplicar talvez seja o atalho mais seguro para chegarmos à tão falada qualidade de vida que queremos
e merecemos ter.

Mas há outras palavras que não podem faltar no kit existencial da mulher moderna. Amizade, por exemplo.
Acostumadas a concentrar nossos sentimentos
(e nossa energia…) nas relações amorosas,
acabamos deixando as amigas em segundo plano.

E nada, mas nada mesmo, faz tão bem para uma mulher
quanto a convivência com as amigas.
Ir ao cinema com elas
(que gostam dos mesmos filmes que a gente),
sair sem ter hora para voltar,
compartilhar uma caipivodca de morango
e repetir as histórias que já nos contamos mil vezes,
isso, sim, faz bem para a pele.

Para a alma, então, nem se fala.

Ao menos uma vez por mês, deixe o marido ou o namorado em casa, prometa-se que não vai ligar para ele nem uma vez
(desligue o celular, se for preciso)
e desfrute os prazeres que só uma
boa amizade consegue proporcionar.

E, já que falamos em desligar o celular,
incorpore ao seu vocabulário duas palavras
que têm estado ausentes do cotidiano feminino:
pausa e silêncio.

Aprenda a parar, nem que seja por cinco minutos,
três vezes por semana, duas vezes por mês,
ou uma vez por dia, não importa, e a ficar em silêncio.

Essas pausas silenciosas nos permitem refletir,
contar até 100 antes de uma decisão importante,
entender melhor os próprios sentimentos,
reencontrar a serenidade e o equilíbrio quando é preciso.

Também abra espaço, no vocabulário e no cotidiano, para o verbo rir.
Não há creme anti-idade nem botox que salve a expressão
de uma mulher mal-humorada.
Azedume e amargura são palavras que devem ser banidas
do nosso dia a dia.
Se for preciso, pegue uma comédia na locadora,
preste atenção na conversa de duas crianças,
marque um encontro com aquela amiga engraçada
– faça qualquer coisa, mas ria.
O riso nos salva de nós mesmas,
cura nossas angústias e nos reconcilia com a vida.

Quanto à palavra dieta, cuidado:
mulheres que falam em regime o tempo
todo costumam ser péssimas companhias.

Deixe para discutir carboidratos
e afins no banheiro feminino ou no consultório do endocrinologista.
Nas mesas de restaurantes, nem pensar.

Se for para ficar contando calorias,
descrevendo a própria culpa e olhando para a sobremesa
do companheiro de mesa com reprovação e inveja,
melhor ficar em casa e desfrutar sua salada de alface
e seu chá verde sozinha.

Uma sugestão?
Tente trocar a obsessão pela dieta por outra palavra que,
essa sim, deveria guiar nossos atos 24 horas por dia:
gentileza.

Ter classe não é usar roupas de grife:
é ser delicada.
Saber se comportar
é infinitamente mais importante do que saber se vestir.

Resgate aquele velho exercício que anda esquecido:
aprenda a se colocar no lugar do outro,
e trate-o como você gostaria de ser tratada,
seja no trânsito, na fila do banco,
na empresa onde trabalha, em casa, no supermercado,
na academia.

E, para encerrar, não deixe de conjugar dois verbos que deveriam ser indissociáveis da vida:
sonhar e recomeçar.

Sonhe com aquela viagem ao exterior,
aquele fim de semana na praia,
o curso que você ainda vai fazer, a promoção que vai conquistar um dia, aquele homem que um dia (quem sabe?)
ainda vai ser seu, sonhe que está beijando o Richard Gere…
sonhar é quase fazer acontecer.
Sonhe até que aconteça.

E recomece, sempre que for preciso:
seja na carreira, na vida amorosa,
nos relacionamentos familiares.
A vida nos dá um espaço de manobra:
use-o para reinventar a si mesma.

E, por último (agora, sim, encerrando),
risque do seu Aurélio a palavra perfeição.

O dicionário das mulheres interessantes inclui fragilidades, inseguranças, limites.

Pare de brigar com você mesma para ser a mãe perfeita,
a dona de casa impecável, a profissional que sabe tudo,
a esposa nota mil.

Acima de tudo, elimine de sua vida o desgaste que é tentar ter coxas sem celulite, rosto sem rugas, cabelos que não arrepiam, bumbum que encara qualquer biquíni.
Mulheres reais são mulheres imperfeitas.
E mulheres que se aceitam como imperfeitas
são mulheres livres.
Viver não é (e nunca foi) fácil, mas,
quando se elimina o excesso de peso da bagagem
(e a busca da perfeição pesa toneladas),
a tão sonhada felicidade fica muito mais possível.

Leila Ferreira

As delícias de ser solteira.

Não adianta: toda mulher teve, tem ou terá preocupações do tipo: qual roupa vestir, qual sapato comprar, ou então ‘Será que vou envelhecer e ficar sozinha?’. A jornalista Leila Ferreira conseguiu colocar, com muito bom humor, essas e outras questões em forma de crônica no livro ‘Mulheres: Por que será que elas…?’ (Editora Globo).

A idéia de compilar esses momentos fatídicos na vida de uma mulher surgiu depois que a autora ministrou uma série de palestras sobre a condição feminina nos dias atuais. ‘As convidadas queriam saber se eu tinha site, livro, ou o texto da palestra’, diz. Um dos motes de ‘Mulheres…’ é o rompimento de uma relação amorosa e suas conseqüências. Enquanto uma personagem adorou se redescobrir após a largar o marido, outra não suporta estar sozinha. Por isso, nem escolhe mais: basta o candidato saber fazer três das operações matemáticas básicas que está ótimo. E tem ainda a professora de inglês que, de tanto trabalhar, não tem pique para se arrumar e freqüentar barzinhos para tentar encontrar um affair.

Leila faz parte do time de solteiras há um ano. Separada de seu segundo marido, está felicíssima. Em uma conversa com Marie Claire Online, ela fala sobre as delícias e dificuldades das mulheres que se separaram após um longo relacionamento.

Marie Claire Online Você disse à revista Marie Claire que sua mãe se separou e foi estigmatizada. Qual é a diferença de se separar hoje e décadas atrás?
Leila Ferreira Imagine uma mulher com seis filhos que se separa depois de 33 anos de casada, há quase quatro décadas, em uma pequena cidade de Minas Gerais. Foi uma atitude corajosa. Ela era uma pessoa extremamente admirada na cidade, professora e diretora de colégio. Mas, mesmo assim, passou a carregar o rótulo de mulher separada. Hoje a gente vive uma outra realidade, a sociedade está mais aberta a certas coisas.

MCO Atualmente, as mulheres se separam e levam uma vida normal…
LF Com certeza. E, além disso, os rompimentos antigamente eram muito drásticos. O ex-marido virava inimigo. Hoje é possível tê-lo como amigo, que é o meu caso, e continuar uma relação de profundo carinho e respeito.

MCO Você viu alguma diferença entre o final do seu primeiro casamento e o do segundo?
LF Quando me separei pela primeira vez, era muito nova. Misturavam-se duas coisas: o medo do desconhecido e a excitação diante da perspectiva de estar solteira e com tanta vida pela frente. Hoje já não há tanta vida pela frente, mas o medo do desconhecido também não existe. A maturidade traz uma segurança e uma serenidade maiores. Aos 27 anos, não sabia se ficaria bem sozinha e, hoje, aos 54, tenho certeza de que dou conta de mim. O que não quer dizer que um companheiro não faça falta, mas não sinto mais aquela ansiedade para encontrar uma pessoa.

MCO Você moraria novamente com alguém?
LF Não, jamais.

MCO Muitas mulheres separadas desejam arrumar um namorado, mas preferem viver em casas diferentes, como você. Como enxerga essa atitude relativamente nova?
LF Pela primeira vez na história, as mulheres estão se permitindo pensar em uma coisa de que nunca se falou: a vocação amorosa. Por que todas nós temos de ter vontade de nos casar e ter filhos? Eu acho que o primeiro casamento acontece por impulso do condicionamento cultural. É como se a mulher precisasse viver esse rito de passagem para ser validada na nossa sociedade. Depois de separada, você já passou por isso e pode optar por ser solteira ou se casar novamente. E, como o casamento não é fácil, tem muita mulher descobrindo que vive muito melhor sozinha.

MCO Essas mulheres só querem o bom do relacionamento.
LF Exatamente. Algumas mulheres, e é esse o meu caso, estão descobrindo que não produzem em cativeiro. Eu produzo muito melhor quando estou sozinha.

MC O que ajuda a vencer o fim de um casamento?
LF Procurar novos interesses, não necessariamente amorosos. Pode parecer clichê, mas fazer um curso ou uma aula de dança pode funcionar para levantar o astral. Mas, acima de tudo, todos têm de viver o luto da separação -que pode durar uma semana, dois anos ou dez. Lembre-se de quem você era antes de se casar. Recupere, além dessa memória perdida, os amigos.

MCO O que é mais difícil superar?
LF Quando você faz parte de um casal, tudo na sua vida existe em função dos dois. O mais difícil é reestruturar a vida para que ela funcione em função de si própria. Você sempre teve um par para viajar, por exemplo. No cinema, aquele braço colado no seu não está mais ali. Essa adequação a um novo momento é difícil.

MC No livro, você fala de Cecília, uma professora de inglês que trabalha muito e não tem pique nem tempo de arrumar um namorado. Você acha que a vida da mulher moderna dificulta a procura de um companheiro?
LF Antigamente, encontrar um novo companheiro era mais fácil, pois tudo acontecia muito perto da gente. A vida tinha um ritmo mais lento e as relações pessoais e familiares eram diferentes. Hoje você participa de uma infinidade de grupos diferentes, mas, de tão apressada que está, só tem contatos superficiais. Além disso, as mulheres estão exaustas. Quando saem do trabalho, acham que devem se produzir muito para encontrar homens interessantes. Depois de tomar banho, fazer uma escova impecável e colocar uma roupa maravilhosa de grife com acessórios combinando, ela está esgotada. Devíamos nos cobrar menos.

MCO Você acha que as mulheres procuram nos homens algo que elas nunca vão encontrar?
LF Conversando com mulheres, percebi que estamos oscilando entre dois lados. De um lado, existem as que se queixam tanto da falta de homens interessantes que estão fazendo concessões e saindo com quase qualquer um. Uma personagem do livro fala que, antes, queria um homem interessante e sensível, que gostasse de cinema. Hoje, ela se satisfaz com qualquer um que saiba fazer três das operações matemáticas. No outro lado estão as mulheres que exigem demais. A antropóloga Miriam Goldemberg diz que a mulher deseja uma mistura de Reynaldo Gianecchini e José Mayer: sensível e viril, delicado e durão. São muitas as exigências para que ele se encaixe no perfil de galã da novela das oito. Se ela não encontrar um cara assim, acabará saindo com qualquer um, que é a pior opção.

MCO Mas as mulheres estão se permitindo experimentar.
LF As mulheres, em tese, estão abertas ao sexo casual, mas o feminismo não conseguiu tirar o romantismo do DNA feminino. A queixa mais recorrente é de que os homens desaparecem. Uma ‘ficada’ para os homens é uma coisa efêmera. Já as mulheres ficam o dia inteiro esperando o celular tocar. Elas estão muito frustradas com esses ‘ficantes’ que não ficam, mas passam correndo por suas vidas.

MCO Você acha que as mulheres são mais felizes sozinhas?
LF Não há regra. É ótimo estar com um homem que valha a pena e que te faça feliz, mas ficar sozinha é uma parte fundamental do processo de estar viva. Todas nós precisamos de períodos de solidão. Seja pós-separação, pré-separação ou durante um casamento feliz. O pior caminho que existe é a mulher se amargurar ou criar asperezas em função de uma solidão que está vivendo. Esse é um momento único e extremamente enriquecedor.