Não Digam que Isso Passa…

Não digam que isso passa,
não digam que a vida continua,
e que o tempo ajuda,
que afinal tenho filhos e amigos
e um trabalho a fazer.
Não me consolem dizendo que ele morreu cedo
Mas morreu bem ( que não quereria uma morte como essa?)

Não me digam que tenho livros a escrever
e viagens a realizar.
Não digam nada.

Vejo bem que o sol continua nascendo
nesta cidade de Porto Alegre
onde vim lamber minha ferida escancarada.

Mas não me consolem:
da minha dor, sei eu.

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Canção das Mulheres.

Que o outro saiba quando estou com medo,
e me tome nos braços
sem fazer perguntas demais.

Que o outro note quando preciso de silencio,
e não vá embora batendo a porta,
mas entenda que não o amarei menos
porque estou quieta.

Que o outro aceite
que me preocupo com ele
e não se irrite com minha solicitude,
e se ela for excessiva
saiba me dizer isso
com delicadeza ou bom humor.

Que o outro perceba minha fragilidade
e não ria de mim,
nem se aproveite disso.

Que se eu faço uma bobagem,
o outro goste um pouco mais de mim,
porque também preciso poder
fazer tolices tantas vezes.

Que se estou apenas cansada
o outro não pense logo
que estou nervosa,
ou doente, ou agressiva,
nem diga que reclamo demais.

Que o outro sinta quanto me dói
a idéia da perda,
e ouse ficar comigo um pouco mais
em lugar de voltar logo à sua vida,
indo porque lá está a sua verdade
mas talvez, seu medo ou sua culpa.

Que se começo a chorar sem motivo
depois de um dia daqueles,
o outro não desconfie logo
que é culpa dele, ou
que não o amo mais.

Que se estou numa fase ruim
o outro seja meu cúmplice,
mas sem fazer alarde nem dizendo
‘Olha que estou tendo
muita paciência com você!’

Que se me entusiasmo por alguma coisa
o outro não a diminua,
nem me chame de ingênua,
nem queira fechar
essa porta necessária
que se abre para mim,
por mais tola que lhe pareça.

Que quando sem querer,
eu digo uma coisa bem inadequada
diante de mais pessoas,
o outro não me exponha
nem me ridicularize.

Que quando levanto de madrugada
e ando pela casa,
o outro não venha logo atrás de mim reclamando:
‘Mas que chateação
essa sua mania,
volta pra cama!’

Que se eu peço um segundo drinque no restaurante,
o outro não comente logo:
‘Pôxa, mais um?’

Que se eu eventualmente
perco a paciência,
perco a graça e
perco a compostura,
o outro ainda assim
me ache linda e me admire.

Que o outro , filho, amigo, amante, marido,
não me considere sempre disponível,
sempre necessariamente compreensiva,
mas me aceite quando não estou podendo ser nada disso.

Que, finalmente, o outro entenda
que mesmo se às vezes me esforço,
não sou, nem devo ser,
a mulher-maravilha,
mas apenas uma pessoa vulnerável
e forte, incapaz e gloriosa,
assustada e audaciosa .
Uma mulher!!!

Canção em Campo Vasto.

“Deixa-me amar-te com ternura,tanto
que nossas solidões se unam,
e cada um falando em sua margem
possa escutar o próprio canto.
Deixa-me amar-te com loucura,ambos
cavalgando mares impossíveis
em frágeis barcos e insuficientes velas,
pois disso se fará a nossa voz.
Ajuda-me a amar-te sem receio:
a solidão é um campo muito vasto
que não se deve atravessar a sós.”

Canção da Estrela Murmurante.

Nós nos amaremos docemente,
nesta luz,neste encanto,neste medo:
nós nos amaremos livremente
no dia marcado pelos deuses.
Nós nos amaremos com verdade
porque estas almas já se conheciam:
nós nos amaremos para sempre
além da concreta felicidade.
Nós nos amaremos lindamente,
nós nos amaremos como poucos,
nós nos amaremos
no seu tempo.

” A delicadeza é um dos componentes do afeto verdadeiro:saber esperar o lugar, a hora, a limitação do outro.Observar enquanto se constrói a ponte entre ele e a sua própria possibilidade de chegar.”

Comentário de Lya complementando o poema acima,em seu livro Secreta Mirada e outros poemas.

Canção da Vez Primeira.

Guardei-me para ti como um segredo
que eu mesma não desvendei:
há notas na minha viola
que não toquei,
há praias na minha vida
que não andei.

É preciso que tomes
além do riso e do olhar
naquilo que não conheço
e adivinhei;
é preciso que me cantes
a canção que serei
e me cries com teu gesto
que nem sonhei.

Meu Jeito…

Quando pareço ausente, não creias:
hora a hora meu amor agarra-se aos teus braços,
hora a hora meu desejo revolve teus escombros,
e escorrem dos meus olhos mais promessas.
Não acredites nesse breve sono;
não dês valor maior ao meu silêncio;
e se leres recados numa folha branca,
não creias também:é preciso encostar
teus lábios nos meus lábios para ouvir.
Nem acredites se pensas que te falo:
palavras
são, meu jeito mais secreto de calar.

Dança Lenta!

Não somos nem bons nem maus:
somos tristes.Plantados entre chão
e estrelas,lutamos com sangue,
pedras e paus,sonho e arte.

Nem vida nem morte:
somos lúcida vertigem,
glória e danação.Somos gente:
dura tarefa.
Com sorte,aqui e ali a ternura
faz parte.