Preciso!

Preciso que um barco atravesse
o mar lá longe
para sair dessa cadeira
para esquecer esse computador
e ter olhos de sal
boca de peixe
e o vento frio batendo nas escamas.

Preciso que uma proa atravesse a carne
cá dentro
para andar sobre as águas
deitar nas ilhas e
olhar de longe esse prédio
essa sala
essa mulher sentada diante do computador
que bebe a branca luz eletrônica
e pensa no mar.

Marina Colasanti

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Vou Vôo e Volto…

Cavalo de vento
Cavalo de ar
Salto na sela
E vou galopar.

Galopo na praia
Galopo no mar
A crina é uma vela
Que faz navegar

Navega na onda
navega no sal
a vela abre asa
me leva a voar

voando no alto
começo a cansar
ao ver minha casa
já quero voltar

Marina Colassanti.

Seis da Tarde.

Às seis da tarde
as mulheres choravam
no banheiro.
Não choravam por isso
ou por aquilo
choravam porque o pranto subia
garganta acima
mesmo se os filhos cresciam
com boa saúde
se havia comida no fogo
e se o marido lhes dava
do bom e do melhor
choravam porque no céu
além do basculante
o dia se punha
porque uma ânsia
uma dor
uma gastura
era só o que sobrava
dos seus sonhos.

Agora
às seis da tarde
as mulheres regressam do trabalho
o dia se põe
os filhos crescem
o fogo espera
e elas não podem
não querem
chorar na condução.

Marina Colassanti

Antes Que…


Preciso ler um bom poema antes
de dormir
antes que a noite encerre o
diário inventário das lembranças
antes que o sono cale boca e olhar, antes
que o prumo caia
horizontal.
Preciso ler um bom poema antes
que seja tarde
que fique escuro
que chegue o frio.
Ler um bom poema
antes que a morte venha
e escreva o seu.

Marina Colassanti

Quarto de Pensão.


Sou pensionista da vida.
Na mesma tábua em que durmo
Escrevo meu trabalho
E ela farfalha, embora já sem folhas,
Só da lembrança de ter sido tronco.
Tenho uma pia no canto,
Que goteja
E é meu lago, meu rio, meu
Fundo mar.
Tenho um rijo cabide
À cabeceira
Para dependurar a pele
A cada noite.
Me dão café com pão, e às vezes
Algum vinho.
Dizem que só paguei meia pensão.
Há uma fome indistinta que me habita
Enquanto o medo
Com felpudos passos
Percorre o labirinto das entranhas.
Mas agradeço essas quatro paredes
E que me tenham dado uma janela.
Pois sei que a qualquer hora
Sem possibilidade de recurso
E talvez mesmo sem aviso prévio
Serei intimada
A devolver o quarto.

Marina Colassanti

Com Sabor a Mar…


Toda noite eu passei
no colo do passado, que
passo à frente
passo atrás
entre os braços me ninava.
Nem era sono
nem era vigília
era como se em água eu chapinhasse
ora funda
ora rasa
e era morna
e com sabor a mar,
água que lambia minha boca
e cicatrizava as feridas.

Marina Colassanti

Frutos e Flores.

Meu amado me diz

Que sou como uma maça

Cortada ao meio

As sementes eu tenho

É bem verdade

E a simetria das curvas

Tive um certo rubor

Na pele lisa

Que não sei se ainda tenho

Mas se em abril

floresce a macieira

Eu maça feita

E pra lá de madura

Ainda me desdobro

Cada vez que sua faca

me transpassa