A Fragilidade dos Valores.

Todas as coisas «boas» foram noutro tempo más; todo o pecado original veio a ser virtude original. O casamento, por exemplo, era tido como um atentado contra a sociedade e pagava-se uma multa, por ter tido a imprudência de se apropriar de uma mulher (ainda hoje no Cambodja o sacerdote, guarda dos velhos costumes, conserva o jus primae noctis). Os sentimentos doces, benévolos, conciliadores, compassivos, mais tarde vieram a ser os «valores por excelência»; por muito tempo se atraiu o desprezo e se envergonhava cada qual da brandura, como agora da dureza.
A submissão ao direito: oh! que revolução de consciência em todas as raças aristocráticas quando tiveram de renunciar à vingança para se submeterem ao direito! O «direito» foi por muito tempo um vetitum, uma inovação, um crime; foi instituído com violência e opróbio.
Cada passo que o homem deu sobre a Terra custou-lhe muitos suplícios intelectuais e corporais; tudo passou adiante e atrasou todo o movimento, em troca teve inumeráveis mártires; por estranho que isto hoje nos pareça, já o demonstrei na Aurora, aforismo 18: «Nada custou mais caro do que esta migalha de razão e de liberdade, que hoje nos envaidece». Esta mesma vaidade nos impede de considerar os períodos imensos da «moralização dos costumes» que precederam a história capital e foram a verdadeira história, a história capital e decisiva que fixou o carácter da humanidade. Então a dor passava por virtude, a vingança por virtude, a renúncia da razão por virtude, e o bem-estar passivo por perigo, o desejo de saber por perigo, a paz por perigo, a misericórdia por opróbio, o trabalho por vergonha, a demência por coisa divina, a conversão por imoralidade e a corrupção por coisa excelente.

Friedrich Nietzsche, in ‘A Genealogia da Moral’

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A Comédia do Ambicioso.

Um homem que aspira a coisas grandes considera todo aquele que encontra no seu caminho, ou como meio, ou como retardamento e impedimento, – ou como um leito de repouso passageiro. A sua bondade para com os outros, que o caracteriza e que é superior, só é possível quando ele atinge o seu máximo e domina. A impaciência e a sua consciência de, até aqui, estar sempre condenado à comédia – pois mesmo a guerra é uma comédia e encobre, como qualquer meio encobre o fim -, estraga-lhe todo o convívio: esta espécie de homem conhece a solidão e o que ela tem de mais venenoso.

Friedrich Nietzsche, in “Para Além de Bem e Mal”

Declaração de Amor!

(e o poeta cai na armadilha)

Ó maravilha! Voará ainda?
Sobe e as suas asas não se mexem?
Quem é então que o leva e faz subir?
Que fim tem ele, caminho ou rédea, agora?

Como a estrela e a eternidade
Vive nas alturas de que se afasta a vida,
Compassivo, mesmo para com a inveja…
E quem o vê subir sobe também alto.

Ó albatroz! Ó minha ave!
Um desejo eterno me empurra para os cimos
Pensei em ti e chorei.
Chorei mais e mais… Sim, eu amo-te!

Friedrich Nietzsche, in “A Gaia Ciência”

Fragmento.

Creio que aqueles que mais entendem de felicidade
são as borboletas e as bolhas de sabão…
Ver girar essas pequenas almas leves, loucas,
graciosas e que se movem é o que,
de mim, arrancam lágrimas e canções.
Eu só poderia acreditar em um Deus que soubesse dançar.
E quando vi meu demônio, pareceu-me sério,
grave, profundo, solene.
Era o espírito da gravidade. ele é que faz cair todas as coisas.
Não é com ira, mas com riso que se mata. Coragem!
Vamos matar o espírito da gravidade!
Eu aprendi a andar.
Desde então, passei por mim a correr.
Eu aprendi a voar.
Desde então, não quero que me empurrem para mudar de lugar.
Agora sou leve, agora vôo, agora vejo por baixo de mim mesmo,
agora um Deus dança em mim!

Friedrich Nietzsche

Expectativas…

Pare de procurar preencher as Expectativas dos outros,
e pare de Esperar que os outros preencham as suas.
Lembre-se: se você sofrer, você estará sofrendo por sua causa;
se os outros sofrem, eles sofrem por causa deles.
Ninguém sofre por causa dos outros – lembre-se disso profundamente.
Somente então você será capaz de ser
realmente sincero para com seu ser interior.
Ninguém pode satisfazer suas Expectativas;
ninguém está aqui para satisfazer suas expectativas.
Todo mundo está aqui para satisfazer as próprias Expectativas;
ninguém está aqui para satisfazer ninguém.
Todo mundo está aqui para satisfazer a si mesmo,
mas você espera que os outros o satisfaçam
e os outros esperam que você os satisfaça.
Então existe conflito, violência, luta e miséria.
Uma vez que você abandone as Expectativas, você aprendeu a viver.
Então tudo o que acontece o deixa satisfeito, seja o que for.
Você nunca fica frustrado, simplesmente porque em primeiro lugar
você não estava esperando nada.
Assim, a frustração é impossível.
A frustração é uma sombra da expectativa.
Com o abandono da expectativa, a frustração cai por sua própria conta.

Friedrich Nietzshe

O Que Se Pode Prometer…

Pode-se prometer atos, mas não sentimentos;
pois estes são involuntários.
Quem promete a alguém amá-lo sempre,
ou sempre odiá-lo ou ser-lhe sempre fiel,
promete algo que não está em seu poder;
mas ele pode prometer aqueles atos
que normalmente são consequência do amor,
do ódio, da fidelidade,
mas também podem nascer de outros motivos:
pois caminhos e motivos diversos conduzem a um ato.
A promessa de sempre amar alguém significa, portanto:
enquanto eu te amar, demonstrarei com atos o meu amor;
se eu não mais te amar,
continuarei praticando esses mesmos atos,
ainda que por outros motivos,
de modo que na cabeça de nossos semelhantes
permanece a ilusão
de que o amor é imutável
e sempre o mesmo.

Friedrich Nietzsche