Estranho Ofício – Paulo Moreira.


Estranho ofício esse. Às vezes, acordando em sobressalto no meio da noite, para atender a urgência de uma idéia, feito um policial percorrendo as ruas do labirinto de nós mesmos. Personagens que surgem e dos quais temos a obrigação de lhes contar as dores, os sofrimentos, o amar, o tudo sentir. Escrivão do tribunal da própria consciência, relatando acontecimentos que marcam o espírito. É assim.
Como uma criança que vive seus sonhos, sou pintor. E meus pincéis são palavras, capazes de colorir sonhos, de produzir telas de natureza viva ou morta. Pintor de casas de toda cor, inclusive das que já a perderam. De árvores secas ou floridas, depende. Um pedreiro que assenta as palavras dos muros de arrimo da esperança. Açougueiro que apunhala o coração sem piedade. Soldado sem quartel.
É esse o ofício. E mais.
Médico amigo que socorre corações e lhes cura as feridas. Cirurgião plástico que modela a amada à feição de fada ou, talvez, um psicólogo navegador que – paciente – ouve, propõe buscas, orienta rumos e viaja Brasis e outros mundos. É o curador ou charlatão de almas tantas, mesmo a sua. Um professor que presume tudo poder ensinar.
Escrever é assim.
Sou engenheiro de palavras, viabilizando o impossível num tear de tramas do fundo de alguém. O iluminador de caminhos, talvez. O palhaço arrancando sorrisos e ternura de uma criança de qualquer idade. Anjo veterinário dos animaizinhos – enxerga cada um como um filho.
Minha profissão são todas e, em cada uma, tento ser o melhor possível. Alimento-me de emoções e as dos outros, pretensiosamente, quero alimentar também.
Sou o músico da poesia ritmada ou sem rima ou rumo. Cineasta e diretor do filme que escolhe o final feliz ou não, conforme meu estado. Filmo cenas de amor, de aventura, dos horrores do mundo. Tudo num papel. Walt Disney de algum desenho animadíssimo. Kubrick de coisas ininteligíveis, mas instigantes.
Emociono-me igualmente com sorrisos ou lamentos. Ambos mexem comigo de uma maneira fortíssima. Despertar a emoção das pessoas é a realização do meu trabalho. A minha maior paga.
Escrevo e faço do meu escrever um testemunho do mundo, de defesa do que me parece justo. Advogado dativo, preposto da natureza, dos amantes, dos sonhos, do Céu e da Terra. Se alguém os agride – enquanto juiz – condeno ao exílio ou à morte perpétua. Passo o concreto e o virtual para um único plano; o dos sentimentos traduzidos em palavras. Arrancar lágrimas, leva-me a um estranho tipo de êxtase.
Ao menos, tento.
Sou nada real. Mas, ainda que absurdo, faço as pessoas pensarem. Um chanceler de todas as profissões e afazeres do mundo. Do amor também.
Na verdade, sou apenas um escritor.
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