“O Valioso Tempo dos Maduros”

Contei meus anos e descobri que terei menos tempo para viver daqui para a frente do que já vivi até agora.
Tenho muito mais passado do que futuro.

Já não tenho tempo para lidar com mediocridades.

Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflamados.

Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram, cobiçando seus lugares, talentos e sorte.

Já não tenho tempo para conversas intermináveis, para discutir assuntos inúteis sobre vidas alheias que nem fazem parte da minha.

Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas, que apesar da idade cronológica, são imaturos.

Detesto fazer acareação de desafetos que brigaram pelo majestoso cargo de secretário-geral do coral.

“As pessoas não debatem conteúdos, apenas os rótulos”.

Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos, quero a essência, minha alma tem pressa…

Quero viver ao lado de gente humana, muito humana; que sabe rir de seus tropeços, não se encanta com triunfos, não se considera eleita antes da hora, não foge de sua mortalidade.

Caminhar perto de coisas e pessoas de verdade.

“O essencial faz a vida valer a pena.
E para mim, basta o essencial!”

RubemAlves.

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Morangos à beira do abismo!!!

Um homem ia feliz pela floresta quando,
de repente, ouviu um urro terrível.
Era um leão.
Ele teve muito medo e começou a correr.
O medo era muito, a floresta era fechada.
Ele não viu por onde ia e caiu num precipício.
No desespero agarrou-se a uma raiz de árvore, que saía da terra.
Ali ficou, dependurado sobre o abismo.
De repente olhou para a sua frente:
na parede do precipício
crescia um pezinho de morangos.
Havia nele um moranguinho,
gordo e vermelho,
bem ao alcance da sua mão.
Fascinado por aquele convite,
para aquele momento,
ele colheu carinhosamente o moranguinho,
esquecido de tudo o mais
E o comeu.Estava delicioso!
Sorriu, então,
de que na vida houvesse morangos à beira do abismo…

Rubem Alves

Lâmpadas e Inteligências.

As lâmpadas servem para iluminar. Para isso, são dotadas de potências de iluminação diferentes.
Há lâmpadas de 60 watts, de 100 watts, de 150 watts… Esse número em watts diz o poder de iluminação da lâmpada.
Também as inteligências servem para iluminar.
Nos gibis, o desenhista, para dizer que um personagem teve uma boa ideia, desenha uma lâmpada acesa sobre a sua cabeça.
As inteligências, à semelhança das lâmpadas, também têm potências de iluminação diferentes.
Os homens inventaram testes para medir a “wattagem” das inteligências.
Ao poder de iluminação das inteligências deram o nome de “QI”, coeficiente de inteligência.
As inteligências não são iguais. Pessoas a quem os testes inventados pelos homens atribuíram um QI 200, têm um poder muito grande para iluminar.
Alguns, para se gabar, chegam a mostrar sua carteirinha, dizendo que sua inteligência tem uma “wattagem” alta.
Mas, nós não olhamos para as lâmpadas. As lâmpadas não são para serem vistas. As lâmpadas valem pelas cenas que iluminam e não pelo brilho.
Olhar diretamente para a lâmpada ofusca a visão.
Há inteligências de “wattagem” 200 que só iluminam esgotos e cemitérios. E há inteligências modestas, como se fossem nada mais do que a chama de uma vela, que iluminam sorrisos.
Uma lâmpada não tem vontade própria. Ela ilumina o objeto que o seu dono escolhe para ser iluminado.
A inteligência, como as lâmpadas, não tem vontade própria. Ela ilumina os objetos que o coração do seu dono determina que sejam iluminados.
A inteligência de quem ama dinheiro ilumina dinheiro, a inteligência dos criminosos ilumina o crime, a inteligência dos artistas ilumina a beleza.
A inteligência é mandada. Só lhe compete obedecer.

Rubem Alves

Sou como aqueles poemas.

Sou como aqueles poemas.
Li os poemas e senti o espanto de me descobrir.
O poema me diz. Diz o que eu já sabia sem saber.

Bem disse Bernardo Soares que
“Arte é comunicar aos outros a nossa identidade íntima com eles.”

Meu rosto aparece refletido no espelho de vidro.
Dentro dele, do espelho, vejo diariamente meu rosto conhecido.
Meu reflexo não me surpreende.
Mas o poema é um espelho onde a minha alma, desconhecida,
aparece refletida. Espanto-me. Nunca me havia visto assim.

O poema me mostra a beleza da minha alma – que eu não via.
Por isso a poesia é salvação.
Na minha solidão dou-me conta de que existe uma outra pessoa
cuja alma se parece com a minha.
Fico grato porque tal pessoa existe.
Minha solidão se transforma em comunhão.

O Pequeno Barco de Velas Brancos.

Nasci nas Minas Gerais. Minas não tem mar. Minas tem montanhas, matas e tem céu.

Minas não tem mar. Lá, quem quiser navegar tem de aprender que o mar de Minas é em outro lugar.

O mar de Minas não é no mar.
O mar de Minas é no céu,
pro mundo olhar pra cima e navegar
sem nunca ter um porto onde chegar.

Acho que é por isso que em Minas nasce tanto poeta. Poeta é quem navega nos céus.

Comecei a navegar no mar de Minas quando era menino. Me deitava no capim e ficava vendo as nuvens e os urubus.

Meus mestres navegadores eram os urubus. Desajeitados em terra, não conheço poeta que tenha falado deles com carinho. É romântico dizer da amada que ela se parece com uma garça branca.

O mar de água, eu só fui ver depois que me mudei para o Rio. Debruçado na murada de pedra da praia de Botafogo ficava a ver os barcos de velas brancas levados pelo vento. Como as garças, voando no céu de Minas.

O mar me fascina. Mas, como não sou do mar, sou das matas, não vou. O mar me dá medo. Mar é perigo, naufrágio. Disse Fernando Pessoa, gravemente:”Deus ao mar o perigo e o abismo deu…”. Ele, português, sabia do que estava falando.

Ó mar salgado, quanto do teu sal
são lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram! Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!

Sabia disso Dorival Caymi quando cantou o jangadeiro que entrou no mar e a jangada voltou só. Doce morrer no mar? Talvez. Melhor morrer no mistério indecifrável do mar que morrer as mortes banais da terra seca.

Mas o perigo não importa. O fascínio é maior. Somos os únicos seres que amam o perigo. Sabia disso a Cecília, que nasceu olhando o mar.

A solidez da terra seca, monótona,
parece-nos fraca ilusão.
Queremos a solidão do grande mar,
multiplicada em suas malhas de perigo.
Queremos sua solidão robusta,
uma solidão para todos os lados,
uma ausência humana que se opõe ao mesquinho formigar do mundo.

Lá está o barquinho de velas brancas, navegando no mar! Bem que ele poderia navegar só nas baías e enseadas, onde não há perigo e o mar é sempre manso. Mas não! Deixando a solidez da terra firme, ele se aventura para sentir o vento forte enfunando as velas e o salpicar da água salgada que salta da quilha contra as ondas. “Sem nunca ter um porto onde chegar”, ele navega pelo puro prazer de entrar no mar.

A vida é assim mesmo. É sempre possível deixar o barco atracado ou só navegar nas baías mansas. Aí não há perigo de naufrágio. Mas não há o prazer do calafrio e do desconhecido.

Segundo o Taoismo, a vida é assim: somos pequenos barcos de velas brancas no mar desconhecido. O remos são inúteis. A força dos elementos é maior que a nossa força. Gosto de ver os urubus voando nos prenúncios de tempestade. Eles não batem asas. Não lutam contra o vento. Flutuam, deixam-se levar.

A sabedoria dos barcos a vela é a mesma sabedoria dos urubus. Brincar com vento e onda, vela e leme, e deixarmo-nos sermos levados – A sabedoria suprema não é fazer – remar – mas fazer nada, deixar-se levar pelo mar da vida que é mais forte. Eu nunca consegui chegar a lugar algum usando remos.

Sempre fui levado por uma força mais forte que a minha razão a praias com que nunca havia sonhado. Foi assim que me tornei escritor, porque o mar foi mais forte que o meu plano de viagem.

 

O jardim ou o jardineiro?

O que é que se encontra no início?
O jardim ou o jardineiro?
É o jardineiro.
Havendo um jardineiro,
mais cedo ou mais tarde um jardim aparecerá.
 Mas, havendo um jardim sem jardineiro,
mais cedo ou mais tarde ele desaparecerá.
O que é um jardineiro?
Uma pessoa cujo pensamento está cheio de jardins.
O que faz um jardim são os pensamentos do jardineiro.
O que faz um povo são os pensamentos daqueles que o compõem.