Encantamento!

A tarde jogou os seus sete véus luminosos
sobre a montanha,
e ficou toda nua dançando
com sombras de crepúsculo
a escorrerem-lhe, suaves, pela pele dourada…
…e ficou toda nua dançando
na campina
ao som da harpa encantada do silêncio…

Tasso da Silveira

Publicado no livro As Imagens Acesas.

Fronteira!

Há o silêncio das estradas
e o silêncio das estrelas
e um canto de ave, tão branco,
tão branco, que se diria
também ser puro silêncio.

Não vem mensagem do vento,
nem ressonâncias longínquas
de passos passando em vão.

Há um porto de águas paradas
e um barco tão solitário,
que se esqueceu de existir.

Há uma lembrança do mundo
mas tão distante e suspensa…

Há uma saudade da vida
porém tão perdida e vaga,
e há a espera, a infinita espera,

A espera quase presença
da mão de puro mistério
que tomará minha mão
e me levará sonhando
para além deste silêncio,
para além desta aflição.

Tasso da Silveira

Publicado no livro Regresso à Origem (1960).

Canção.

Quando a alta onda de poesia
veio do arcano profundo,
no pobre e efêmero mundo
o eterno pôs-se a pulsar.
Vidas se transfiguraram,
permutaram-se destinos.
O azul se fez mais etéreo,
estradas mais se alongaram,
silêncio cantou na aldeia
sino ficou a escutar,
moeu trigo a lua cheia,
lampião de rua deu luar,
a água mansa da lagoa
ergueu-se em repuxo límpido
e se esqueceu de tombar,
alvas estrelas em bando
desceram lentas pousando
sobre a terra e sobre o mar.

Tasso da Silveira

Publicado no livro Regresso à Origem (1960)