Só agora aprendi!


Só agora aprendi
que amar é ter e reter.
Foi quando te vi.

Vi quando a rosa se abriu.
Como a eternidade
pode ser tão fugaz?

Não sei quando é o mar,
ou se é o sol dos teus cabelos.
Tudo são funduras.

Na entressombra, o sabre
se estira na relva morna.
O nenúfar se abre.

Brilha um dorso: és tu.
Encontro no teu ventre
a explicação da luz.

Thiago de Mello.

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Arte de amar!!!


Não faço poemas como quem chora,
nem faço versos como quem morre.
Quem teve esse gosto foi o bardo Bandeira
quando muito moço; achava que tinha
os dias contados pela tísica
e até se acanhava de namorar.

Faço poemas como quem faz amor.
É a mesma luta suave e desvairada
enquanto a rosa orvalhada
se vai entreabrindo devagar.
A gente nem se dá conta, até acha bom,
o imenso trabalho que amor dá para fazer.

Perdão, amor não se faz.
Quando muito, se desfaz.
Fazer amor é um dizer
(a metáfora é falaz)
de quem pretende vestir
com roupa austera a beleza
do corpo da primavera.

O verbo exato é foder.
A palavra fica nua
para todo mundo ver
o corpo amante cantando
a glória do seu poder

Thiago de Mello.

Quem é quem?


Posso dizer: estou pronto
para me dar ao que vier.
Posso errar, mas não por medo
de me ser no que fizer.
Quem me pode responder
que sabe ser, sendo inteiro
fiel e simples, sendo a tudo
que faz e não quer fazer?

 

Thiago de Mello.

Silêncio e palavra I

A couraça das palavras
protege o nosso silêncio
e esconde aquilo que somos
Que importa falarmos tanto?
Apenas repetiremos.
Ademais, nem são palavras.
uns vazios de mensagem,
são como a fria mortalha
do cotidiano morto.
Como pássaros cansados,
que não encontraram pouso
certamente tombarão.
Muitos verões se sucedem:
o tempo madura os frutos,
branqueia nossos cabelos.
Mas o homem noturno espera
a aurora da nossa boca.

 

Thiago de Mello.

Silêncio e palavra II

Se mãos estranhas romperem
a veste que nos esconde,
acharão uma verdade
em forma não revelável.
(E os homens têm olhos sujos,
não podem ver através.)
Mas um dia chegará
em que a oferenda dos deuses,
dada em forma de silêncio,
em palavra transfaremos.
E se porventura a dermos
ao mundo, tal como a flor
que se oferta – humilde e pura –
teremos então cumprido
a missão que é dada ao poeta.
E como são onda e mar,
seremos palavra e homem.

 

Thiago de Mello.

Ninguém me habita!

Ninguém me habita.
A não ser o milagre
da matéria que me faz
capaz de amar,
e o mistério da memória
que urde o tempo
em meus neurônios,
para que eu, vivendo agora,
possa me rever no outrora.
Ninguém me habita.
Sozinho resvalo pelos
declives onde me esperam,
me chamam
(meu ser me diz se as atendo)
feiúras que me fascinam,
belezas que me endoidecem.

 

Thiago de Mello.