“Canção do Outono II”

Os longos sons
dos violões,
pelo outono,
me enchem de dor
e de um langor
de abandono.

E choro, quando
ouço, ofegando,
bater a hora,
lembrando os dias,
e as alegrias
e ais de outrora.

E vou-me ao vento
que, num tormento,
me transporta
de cá pra lá,
como faz à
folha morta.

Paul Verlaine
Tradução: Onestaldo de Pennafort

“Canção do Outono III”

Os soluços graves
Dos violinos suaves
Do outono
Ferem a minh’alma
Num langor de calma
E sono.

Sufocado, em ânsia,
Ai! quando à distância
Soa a hora,
Meu peito magoado
Relembra o passado
E chora.

Daqui, dali, pelo
Vento em atropelo
Seguido,
Vou de porta em porta,
Como a folha morta
Batido…

Paul Verlaine
Tradução: Alphonsus de Guimaraens

Circunspecção.

Dá tua mão, não respira, senta aqui,
à sombra desta árvore onde morre a brisa
aos suspiros da copa cor de cinza
que o lívido luar acaricia.

Imóveis, baixemos a mirada pia
sem pensar, sonhemos. deixemos à guisa
do amor e da alegria que amenizam
e em nossa cabeça a coruja pia

Para quê esperar? discreta e contida
que nossas almas prossigam
essa calma e essa serena morte solar

Silêncio, em meio à paz noturna:
não é bom vir em seu sono atrapalhar
a natureza, essa deusa feroz e taciturna.

Paul Verlaine.

Lassidão!

Ah, por favor, doçura, doçura, doçura!
Acalma esses arroubos febris, minha bela.
Mesmo em grandes folguedos, a amante só deve
Mostrar o abandono calmo da irmã pura.

Sê lânguida, adormece-me com os teus afagos,
Iguais aos teus suspiros e ao olhar que embala.
O abraço do ciúme, o espasmo impaciente
Não valem um só beijo, mesmo quando mente!

Mas dizes-me, criança, em teu coração de ouro
A paixão mais selvagem toca o seu clarim!…
Deixa-a trombetear à vontade, a impostora!

Chega essa testa à minha, a mão também, assim,
E faz-me juramentos pra amanhã quebrares,
Chorando até ser dia, impetuosa amada!

Paul Verlaine.